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O furacão Maria devastou a ilha de Porto Rico por completo. Não há, nos dias depois, sequer eletricidade na ilha, nem infraestrutura restante para tal. Não há previsão de que a luz seja restabelecida durante meses, talvez até meio ano. E o governo federal não move nem um dedo para ajudar.

A temporada de ciclones tropicais no Oceano Atlântico tem sido mais leve nos últimos anos. Desde os danos causados pelo furacão Sandy em 2012, não houve nenhum de tamanha importância. Este ano, porém, dois furacões devastadores já tinham chegado às costas norte-americanas, provocando grandes danos nos estados do Texas e da Florida. O número de afetados já tinha atingido os milhões, seja por falta temporária de luz, seja por danos a bens materiais.

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E então veio o furacão Maria

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Porto Rico é uma ilha de cultura hispânica, pertencente aos Estados Unidos em consequência de um conflito com um império espanhol decadente, que perdia as suas possessões caribenhas de vez no fim do século 19. Basta dizer que a ilha, sem status de estado, é um vestígio de colonialismo—os seus cidadãos são cidadãos americanos com todos os deveres e privilégios envolvidos, mas sem representação na legislatura federal ou voto no colégio eleitoral que decide o presidente. A história da ilha, possessão espanhola desde o primeiro contato com a tribo dos taínos, faz com que a cultura seja marcadamente diferente da do continente.

A resposta aos furacões Harvey e Irma foi rápida. Os estados afetados receberam garantias generosas de socorro e reconstrução de infraestruturas essenciais. Esses territórios, por acaso, são áreas fielmente republicanas ao nível legislativo e estadual. Com a maioria no Congresso e simpatia não desmerecida da nação, o aval do socorro foi fácil.

Em Porto Rico, no entanto, toda a ilha está sem eletricidade e há uma escassez de comida, medicamentos e materiais de construção. A agricultura foi dizimada e não será capaz de produzir nem uma parte minúscula da comida que as pessoas necessitam—este ano, não há colheita. Barragens, equipamentos de telecomunicações e mais da chamada infraestrutura vital ou estão em risco de falhar, ou destruídos. A destruição na ilha é, por fins de habitação humana, total. A luz vai demorar meses a restabelecer-se. Não há previsão de quanto tempo será preciso que hospitais estejam normalizados, que comida seja garantida e que os imóveis danificados sejam reconstruídos.

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Basta dizer que a ilha, sem status de estado, é um vestígio de colonialismo

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Se a reação foi produtiva e construtiva depois dos furacões anteriores, como será que foi depois de Maria? Sem surpreender ninguém, a imprensa tem vindo com cobertura mínima das consequências para Porto Rico, preferindo controvérsias entre a liga profissional de futebol americano e o presidente. O próprio presidente demorou para se proclamar publicamente. O que teve a dizer primeiramente? Um sermão no Twitter sobre o grande endividamento da ilha. Desde então, as garantias de socorro têm sido escassas. A lei marítima que impede a atracação de navios estrangeiros nos portos americanos, suspendida por Harvey e Irma, não será suspendida para Porto Rico.

Que a discrepância entre o tratamento dos estados do Texas e da Florida e o de Porto Rico não parece casualidade, pois não parece. A administração e o partido republicano já se têm mostrado menos preocupados com os problemas das minorias raciais, senão abertamente racistas. Que Porto Rico não é um estado complica a já tépida reação que recebe frente à tragédia, também. Esquecemo-nos de Porto Rico porque não se conforme ao sistema que o domina. O colonialismo segue vivo, eis o exemplo mais claro.

Imagem: Angel Janer
Sacha
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Americano que saiu de Lisboa para morar em Barcelona. Ensina comida, cultura e língua portuguesa em vídeos. Produz o podcast Bottom of the Mainstream, focado em temas LGBT. Filólogo por opção, formado em Estudos Russos e Ciência Política pela Universidade do Colorado e a Universidade Católica Portuguesa. Não cansa do estilo de vida mediterrâneo.

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