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É raro que um democrata seja eleito num estado como o Alabama. Algumas regiões do país são tão fielmente partidários que nem sequer têm votantes indecisos o suficiente para terem candidatos eleitos do outro partido. A margem, simplesmente, é demasiado grande. O Alabama é o exemplo prototípico disso. Ainda assim, Doug Jones não deixou escapar a sua oportunidade na eleição especial para o Senado contra o republicano Roy Moore.

Consideremos as circunstâncias. Roy Moore tem uma larga, insidiosa história de acusações de abuso sexual de menores de idade. Inclusive foi impedido de jamais entrar em certo shopping por causa disso. As vítimas já se têm apresentado com relatos de faz décadas. Todas as acusações seguem um padrão da vítima ser menor de idade e ele ser agressivo.

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Um político permanecer na candidatura nessas condições é quase impensável

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O que é extraordinário das circunstâncias da eleição no Alabama é o momento que escolheram fazer as acusações contra o candidato de um partido. Vivemos agora uma onda de vítimas a contar as suas histórias de assédio e abuso. Esses relatos são levados a sério e os agressores estão responsabilizados pelo acontecido. Hollywood faz semanas que não para de expulsar os acusados. Este efeito também se transferiu para a política, com vários políticos notáveis dos dois grandes partidos forçados a não se recandidatar ou mesmo demitir-se por cause de acusações credíveis.

Embora seja notável que Moore conseguiu, de algum jeito, a candidatura republicana, o apoio tépido que teve do partido não é tanto assim. Não devemos esquecer que o próprio presidente quase viu a sua campanha implodir pelos comentários de “grab them by the pussy” gravados em vídeo. Apesar de grandes nomes na mídia e na política caírem, o maior de todos continua, por enquanto, confortável na sua posição. Este momento na nossa cultura, aliás, não se tem estendido ao mais flagrante dos acusados.

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A persistência de #MeToo não tem paralelo

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Sem a onda da sociedade a dar voz contra assédio e abuso sexual, seria quase impossível exigir a demissão de figuras tão estabelecidas. É para o benefício da sociedade em geral, especialmente as mulheres mesmo, que outra vez nos despertamos à violência real de assédio e abuso. Numa época em que o ciclo mediático se tem reduzido a meras horas, a persistência de #MeToo não tem paralelo. Isso na sua extensão, persistência e capacidade de atingir figuras de todos os lados dos espectros sociais. Sejam rabinos, diretores, vereadores, representantes, ou outros, agressores estão sendo expostos por vítimas caladas há muito tempo.

Roy Moore perdeu por apenas 1,5% até ao final da noite de terça-feira. Essa é uma margem estreitíssima de rejeição da personificação de tudo contra o qual o movimento Me Too luta. Mesmo assim, aconteceu. É um momento breve de alívio da barragem de escândalos na política que não parece ter fim. Se conseguir alcançar o acusado mais alto, será na base desta mesma opinião pública.

Imagem: Jordan Ladikos
Sacha
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Americano que saiu de Lisboa para morar em Barcelona. Ensina comida, cultura e língua portuguesa em vídeos. Produz o podcast Bottom of the Mainstream, focado em temas LGBT. Filólogo por opção, formado em Estudos Russos e Ciência Política pela Universidade do Colorado e a Universidade Católica Portuguesa. Não cansa do estilo de vida mediterrâneo.

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