A inflação é uma praga que atinge não só o bolso do brasileiro. A crise que se passou em 2008 não deixou um canto do mundo livre de seus efeitos, mais tarde ou mais cedo. Depois de uma queda meteórica no mercado imobiliário no Ocidente, os preços têm voltado a níveis insustentáveis nas zonas de maior atividade econômica. Nos Estados Unidos hoje, em nada se nota tanto os efeitos da crise como na moradia.

Uma década perdida

Se está caro arrendar uma casa tanto no Rio de Janeiro quanto em cidades como Vancouver, São Francisco, ou Londres, o que há por trás disso? É preciso começar com a crise de 2008 e os efeitos no mercado financeiro.

Há uma década, a construção era financiada em grande parte por linhas de crédito pedidas aos bancos. Esses mesmos bancos em grande número faliram na crise financeira, levando à cessão da atividade de construtoras. Os bancos que restavam dificultaram o acesso a crédito.

Sem projetos, as construtoras começaram a encerrar ou especializar em projetos de luxo que pudessem pagar as contas. A bola de neve foi descendo durante anos, deixando muitas cidades com uma década inteira (ou mais) de construção perdida.

As populações, entretanto, não esperavam as construtoras recuperarem as condições. Entradas em plena recuperação econômica, essas cidades tornaram-se pólos migratórios sem que tivessem a capacidade de acolher todos que queriam habitá-las.

Não é por acaso que as cidades mais baratas para se viver são as mesmas que têm permitido a construção de capacidade adequada ao crescimento de emprego na última década.

O deslocamento de populações antigas às mãos de recém-vindos com mais dinheiro é o que se tem chamado gentrificação. Algumas cidades, já sentindo essa pressão, tentaram legislar proteções contra o fenômeno. Em cidade alguma isso tem resultado da forma desejada. Em alguns casos, a situação até foi agravada.

Com espaço limitado e pouca ação tomada para deixar lugar para todos, os mais privilegiados ganham. Os preços continuam a subir apesar de qualquer esforço. É o caso de toda a Califórnia, especialmente a área da Baía de São Francisco.

Não há uma causa única

Aqui não há nenhum mistério. O princípio de oferta e procura é bastante simples: quando existe um bem pelo qual há pouca oferta e muita procura, o preço sobe. E os preços subiram muito. As cidades e estados tampouco souberam construir habitação social o suficiente para as necessidades da população. Esta é a base dos males de comprar ou arrendar uma casa hoje em dia.

Isto se aplica tanto em casos extremos como na Espanha, quanto em áreas menos afetadas, como nas cidades da região chamado o Sun Belt (Cinturão do Sol) americano. Mas não explica tudo.

O ponto em comum de toda a explicação é o desejo de controlar e bloquear o crescimento populacional das cidades. Os motivos são vários para bloquear o crescimento. Argumentos superficiais defendem uma melhoria em qualidade de vida ou escolas públicas. Outros são mais discretos. Entre eles é o desejo de preservar o preço imobiliário por esta via artificial. Assim, enriquece-se quem já teve o privilégio de comprar casa no lugar e tempo certo.

As cidades americanas sofrem de um câncer de zoneamento excessivo

Outro fator agravante, eminente na Califórnia, é o zoneamento restritivo das cidades. O zoneamento dita os usos dos edifícios, permitindo a atividade comercial ou industrial, a residência, usos agrícolas e etc. Também dita a forma que podem tomar os edifícios. Isto é, restringe ou não o tamanho dos edifícios e determina se podem ser juntos ao estilo urbano ou somente separados ao estilo suburbano. Usos mistos são raros e frequentemente relegados a diferentes tipos de atividade comercial: torres parcialmente ocupadas por hotéis e escritórios, por exemplo.

Concebido como forma de regular os usos do território de um município, o zoneamento tem sido aplicado para bloquear crescimento de qualquer elemento indesejado nas cidades americanas. As origens do zoneamento remontam à época de integração e o movimento para direitos civis. Esta é a mesma época do processo de fuga dos brancos dos centros das cidades.

O zoneamento começa como uma forma discreta, entre muitas, de restringir o acesso de pessoas negras e outras inúmeras minorias às comunidades preferidas pelos brancos de classe média até alta.

Isto se efetua principalmente por meio de restringir a construção de casas em grande número. Esquece qualquer tipo de construção densa, como apartamentos ou condomínios, onde pessoas menos afortunadas podiam viver.

Uma vez designada uma área atrativa para se viver, ordenanças e ação civil completam o processo de negar a concessão de casas às minorias indesejadas. Chegou a tal ponto na Califórnia que algumas cidades sequer permitiram licenças para a construção de mais do que uma dúzia de casas novas durante a última década, enquanto a crise imobiliária se agravou nas suas respectivas áreas metropolitanas.

Uma nova política emergente quer corrigir esta falha

Nos últimos anos, tem surgido um movimento político que se centra na questão de ter casa para todos. Na legislatura californiana, várias iniciativas ganharam tração nos últimos três anos para facilitar o livramento de mais vivendas. Agora, um projeto-lei pretende forçar os municípios do estado a permitirem tipologias densas em torno de transporte público. Há candidaturas de vereadores em São Francisco focadas em transformar a cidade numa que constrói mais casas para acalmar os preços astronómicos na cidade. Assim se vai espalhando não só pela Califórnia, mas o país inteiro.

Toda a gente já começou a dar-se conta de que a renda está demasiada cara. Agora falta pôr em prática soluções para uma situação uma década atrasada.

Sacha
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Americano que saiu de Lisboa para morar em Barcelona. Ensina comida, cultura e língua portuguesa em vídeos. Produz o podcast Bottom of the Mainstream, focado em temas LGBT. Filólogo por opção, formado em Estudos Russos e Ciência Política pela Universidade do Colorado e a Universidade Católica Portuguesa. Não cansa do estilo de vida mediterrâneo.

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