Eu entrei para o mundo das séries no ano passado. Demorei porque acreditava que não teria tempo para assistir temporadas e mais temporadas. Comecei com uma série que todo mundo falava bem: Breaking Bad. Vi as cinco temporadas e gostei, mas não achei tudo isso não. Tudo bem que não vi na época em que muitos reservaram certo período do dia para ver a série. Entretanto, só uma das temporadas me chamou a atenção, a quarta, que contém o personagem Gus Fring (Giancarlo Esposito). Beleza, eu obviamente iria me interessar na trama no momento que veria um semelhante.

Depois da série do Heisenberg, fui para a da Piper, Orange Is The New Black. Novamente por indicações do tipo “você tem que ver essa!”. Adivinha o que aconteceu? Repeti a obviedade e amei as personagens negras, como a Suzanne “Crazy Eyes” Warren (Uzo Aduba), a Tasha “Taystee” Jefferson (Danielle Brooks), a Poussey Washington (Samira Wiley) e a Cindy “Black Cindy” Hayes (Adrienne C. Moore).

.

Eu sabia o porquê do meu interesse, era simples: eu me via representado e me enxergava em diversas situações interpretadas por elas

.

 

Mas então, eu era o cara chato que só gostava das séries que tinham negros? Sim, porque isso realmente acontecia; e não, porque eu não estava fazendo nada de diferente dos meus amigos brancos. Assim como toda pessoa branca se identifica com personagens brancos, eu, negro, me identificava com os personagens negros. O grande problema dessa comparação é como nos é apresentada essa identificação: o branco é o padrão, e o negro é o segmento.

É pesado e triste perceber isso. Uma grande produção branca é tida como abrangente, todos os públicos são obrigados a ver, La La Land é um bom exemplo. Enquanto Moonlight, a grande produção negra é específica, direcionada apenas para negros. Essa é a parte triste. Na música Moonlight, Jay-Z resume o episódio do Oscar no refrão.

.

 We stuck in La La Land/ Even when we win we gon’ lose

(Nós estamos presos à La La Land, mesmo quando nós ganhamos, nós perdemos)

.

Ainda sobre o Oscar, a parte pesada é ver comentários das pessoas que “são mais compreensíveis”. Casey Affleck e Denzel Washington estavam concorrendo na categoria de melhor ator. Eu li num post de um amigo que: o Casey sabia sentir dor e transparecia isso em seus silêncios, já o Denzel gritava demais. O personagem que tinha o comportamento padrão ganhou. Isso é pesado por que? Porque o papel interpretado por Denzel (Troy Maxson) é praticamente o retrato da figura paterna negra. Eu me senti muito ofendido por esse comentário.

Atualmente, muitas séries estão em destaque em redes sociais, mas o padrão e o segmento continuam. Pela HBO, Game Of Thrones é o padrão e Insecure o segmento. Pela Netflix, Stranger Things é o sucesso (e tem até um negro) enquanto She Gotta Have It atingiu apenas o público negro. Não é errado afirmar que a produção multimídia negra está no seu melhor momento e, mesmo assim, não é valorizada. Além das já citadas temos 13th, Greenleaf, Black-Ish, Queen Sugar, How to Get Away with Murder, Empire, Atlanta, Luke Cage, OJ: Made In America, Scandal, Dear White People e The Get Down (que foi cancelada) como séries de excelência. Não é errado uma pessoa branca gostar de filmes e séries que a representa. O problema é tratar o interesse de uma parcela como o interesse do todo.

Airan Albino
Airan Albino
Airan é formado em Jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande Sul. É especialista em Jornalismo Digital pela Pucrs. Tem cursos de extensão na Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul sobre Literatura Afro-Americana e sobre Escritores Negros.

Artigos similares

Comentários no Facebook