Raja Gemini é o nome artístico de Sutan Amrull. É a personagem criada por esta fabulosa drag queen que venceu a terceira edição do reality show RuPaul’s Drag Race, uma das maiores atrações de entretenimento LGBT atualmente.

A terceira temporada da série foi ao ar em 2011 e muita gente que hoje acompanha o programa pode nem tê-la visto. Em novembro de 2014, Raja esteve em Porto Alegre pela primeira vez, participando da segunda edição da festa XTRAVAGANZA DRAG PARTY. Se não me falha a memória, foi a primeira visita de uma vencedora de RuPaul’s Drag Race à cidade. Naquela ocasião, tive a oportunidade de conversar com Raja durante mais de uma hora.

A entrevista viria a ser publicada no site Nada Errado, de Minas Gerais. O site acabou saindo fora do ar e a entrevista infelizmente se perdeu, junto com as maravilhosas fotos feitas pelos queridos Felipe Matzembacher e Marcio Reolon. Hoje em dia o Nada Errado sobrevive no Medium, mas o registro do vibrante papo que tive com a Raja não está lá.

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Por isso faço este resgate e deixo aqui a íntegra da entrevista.
Raja e a cultura drag ainda têm muito a nos ensinar!

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Quando você começou a se montar?
Raja: Eu comecei a me montar aos três anos de idade. Eu vestia as roupas e jóias da minha mãe. Foi nessa idade que eu comecei a experimentar. Mas eu comecei a levar isso mais a sério na adolescência, a sair nos clubes em drag a partir dos 16 anos. Eu cresci num lar religioso, então isso fazia parte da minha rebelião, sair com meus amigos, ir para as festas. Essa era a minha primeira intenção. Foi quando eu fiz 18 anos que decidi que drag era algo que eu realmente queria fazer. A maior parte do início da minha vida adulta foi bastante queer, focada em gênero, em drag, em me transformar em uma linda mulher. Mas agora não é mais apenas sobre isso. Não é uma rebelião, é mais sobre a forma como eu me relaciono e me identifico comigo mesmo.

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Era uma batalha, era muito complicado para mim me expressar na minha família.

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Como foi a sua relação com os pais?
Raja: Era muito difícil para eles entenderem. Eu nunca realmente saí do armário para eles. Eu comecei a me montar muito cedo, então eles sempre souberam. Meu pai foi muçulmano durante 50 anos, depois ele se converteu ao cristianismo – o que é proibido – e se tornou um pastor. Então sempre teve esse aspecto religioso presente na minha família. Era uma batalha, era muito complicado para mim me expressar na minha família. Eu sempre tive muitos medos até ir para a faculdade, que foi quando comecei a me sentir mais à vontade, já vivendo fora da casa dos meus pais. Mas com o tempo foi ficando mais fácil para mim me expressar junto à minha família.

Quando tu começou a trabalhar como maquiador profissional?
Raja: Eu comecei a fazer drag e a trabalhar como maqueador no mesmo período. Eu queria ser maqueador porque eu também queria saber me maquear bem. Eu tinha uns 20 anos quando eu comecei as duas carreiras de uma forma mais profissional.

Como surgiu a decisão de tentar participar de drag race?
Raja: Foi uma decisão difícil para mim, porque eu já tinha uma carreira estabelecida. Eu sabia que o seriado estava se tornando popular, mas eu não sabia se isso iria realmente ser algo arriscado para minha carreira como maquiador. Eu pensava que as pessoas poderiam zombar de mim por estar participando de um reality show, como se eu não estivesse me levando a sério. Eu pensei muito sobre isso e cheguei à conclusão de que eu estava muito confiante também com meu trabalho como drag queen, então simplesmente me candidatei.

Foi a tua primeira tentativa?
Raja: Sim.

Que sorte!
Raja: Eu acho que as vezes as coisas apenas acontecem. Acho que quando fui escolhido para o seriado, isso demonstrou que a televisão estava pronta para algo diferente. Eu fiquei muito temeroso, porque eu era diferente. Eu achava que não fosse durar muito tempo, que eu não fosse ganhar. Eu achava que não iria durar nem meia temporada.

Quando tu entrou no seriado, tua carreira como maquiador era mais sólida do que a tua carreira como drag?
Raja: Eu era freenlancer, então às vezes eu tinha muito trabalho e às vezes não tinha nada. Se eu não conseguia me sustentar como maquiador, eu sempre tinha a opção de trabalhar como drag queen e vice-versa. Eu acho que tudo aconteceu quando tinha que acontecer, porque quando fui selecionado para drag race eu já estava pensando que eu tinha que me dedicar com muita seriedade a uma coisa ou outra. Eu já estava com 37 anos, eu tinha que levar isso a sério e crescer profissionalmente. Eu pensava que talvez pudesse me dedicar somente à maquiagem, mas foi aí que Drag Race aconteceu.

O que essa experiencia significou na tua vida?
Raja: Meus pais puderam ver o que eu fazia. Isso significou tudo para mim. Um ano depois de eu ganhar, meu pai faleceu. Antes disso ele pôde me ver como eu era. Eu lembro de sentir tanto medo de me expressar na frente dele. Eu sempre pensei: como vou explicar para ele que me visto com essas roupas engraçadas e faço shows nas boates? Ele nunca iria entender. E quando eu participei de Drag Race, meu pai pôde me ver fazendo algo que eu realmente gosto de fazer, que eu tenho orgulho de fazer. Para mim, fazer drag e participar daquela competição era minha própria versão de ser atlético, de ser forte.

Depois de tudo, ele acabou te apoiando?
Raja: Ele amou. Ele muito feliz e muito orgulhoso de mim. Isso foi o mais importante de tudo, juntamente com as amizades que eu fiz lá. Sou muito próximo da Manilla. Essa série mudou minha vida de muitas formas. Olhe onde eu estou agora: no Brasil! Antes de participar da série, fazer drag era apenas um fenômeno local para mim, eu trabalhava em Los Angeles, em Hollywood, agora tenho viajado muito.

No último episódio, Ru disse que você é uma pessoa bem introvertida. Você ainda se considera assim?
Raja: Eu acredito em Astrologia, eu acho que tem uma parte de mim que é, sim, bastante tímida. Nem sempre eu sei como me expressar em determinadas situações. Eu gosto de passar algum tempo sozinho, é assim que a minha mente funciona, eu acho que isso é algo poderoso. Então eu posso, sim, ser um introvertido, mas eu também posso ficar num palco, em frente a centenas de pessoas, e me jogar em direção a elas.

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No processo de estar em Drag Race, de poder competir e interagir com as outras participantes, me deixou muito mais seguro, porque comecei a perceber a força que eu tinha.

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E também no último episódio, quando Ru pediu para você listar suas qualidades e defeitos, você disse que pela primeira vez estava se enxergando como uma pessoa bela.
Raja: Eu acho que por um bom tempo eu usei drag como uma armadura para esconder qualquer insegurança que eu pudesse ter. No processo de estar em Drag Race, de poder competir e interagir com as outras participantes, me deixou muito mais seguro, porque comecei a perceber a força que eu tinha. Eu também finalmente percebi que, a essa altura, fazer drag já não era algo separado da minha vida. Já não havia mais um Sutan e uma Raja: eram os dois num só. Estar no programa me ajudou a perceber isso.

E fale um pouco sobre o estilo da Raja. Ela mudou muito com o tempo? Ainda brinca com as questões de gênero?
Raja: Até onde me lembro, nunca haviam considerado que eu adotava um estilo mais genderfuck até eu ter ingressado no programa. Na maior parte do tempo, eu sempre fui considerada linda e feminina, nunca haviam dito que eu fazia um estilo genderfuck. Eu acho que algo foi despertado em mim, nesse sentido, enquanto eu estava no programa. Mas, em geral, meu estilo não é tanto sobre gênero quanto é sobre criar uma ideia. Eu adoro ideias que são multiculturais, porque eu viajo muito e gosto de coletar influências de diferentes partes do mundo. Eu faço drag não porque quero me tornar uma mulher, mas porque quero expressar esse lado feminido. Eu faço drag porque eu amo as roupas, mais do que eu gosto da transformação. Só porque é um vestido, não significa que um homem não possa usá-lo. Se você fica ótimo em um vestido, você deveria usar esse vestido.

Você viveu na Indonésia dos 3 aos 10 anos. Como esse período influenciou na sua vida e na sua arte?
Raja: Influenciou tudo. Eu passei minha infância como um garotinho em Báli, totalmente envolvido naquela cultura, naquela espiritualidade, naquelas praias maravilhosas. Isso foi muito marcante para mim. Quando eu voltei para os Estados Unidos, já no início dos anos 1980, a primeira coisa que eu vi na televisão foi Boy George. Nós sequer tínhamos televisão na Indonésia. Quando voltei para os Estados Unidos, comecei a absorver todas essas referências, assitir aos clássicos de Hollywood, como uma esponja. Acho que crescer nesses lugares tão diferentes significou muito na minha vida, eu dou mais valor às coisas, porque cresci numa área muito pobre, então meu olhar sobre as coisas é bem diferente da maioria dos americanos.

Depois de ganhar, você disse que queria falar com as crianças, inspirar os meninos, dizer a eles que é tudo bem ser uma pessoa que não se enquadra.
Raja: Eu tenho feito tantas coisas desde então, eu vou dar palestras em universidades, em organizações LGBTs. Eu acho que meu diálogo com as novas gerações não é exatamente uma conversa direta, mas ocorre pela forma como eu vivo a minha vida. Eu nunca conversei com meus ídolos e meus heróis, eles nunca conversaram diretamente comigo. Mas eu assistia eles. Eu via Madonna, eu via RuPaul, eu via todos eles fazendo o que eles faziam e vivendo suas vidas de forma autêntica. E hoje nós temos as redes sociais, as pessoas vêm de todos os lugares entrar em contato pelo Instagram, pelo Twitter e pelo Facebook. Isso é maravilhoso.

Muitas pessoas mais jovens costumam te escrever e-mails, te contar sobre suas vidas?
Raja: Milhares de e-mails. Eu não consigo ler todos e acho que não tenho que ler todos. Muitas mensagens são parecidas. Eu estava no aeroporto aqui e dois garotos estavam me esperando. Duas adoráveis rainhas. É dessa forma que eu sei que estou fazendo a diferença, que, de alguma forma, sou um modelo para os mais jovens.

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Eu não conseguia entender porque as pessoas não gostavam de mim, eu nunca tive uma má intenção. Foi algo que me machucou muito, ver algumas pessoas sendo tão cruéis.

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Você também disse que, com a vitória, passou a ter muitos haters. Isso ainda continua ocorrendo?
Raja: Eu era muito novo em relação às redes sociais. Eu mal tinha uma conta no Twitter. Eu não conseguia entender porque as pessoas não gostavam de mim, eu nunca tive uma má intenção. Foi algo que me machucou muito, ver algumas pessoas sendo tão cruéis. Mas eu percebi que isso faz parte da nossa cultura. Eu tenho uma ótima amiga, a Dita Von Teese, nós nos conhecemos há quase 20 anos, e eu perguntei a ela como ela lida com isso? Ela disse: “Raja, se você ignorar eles, eles não existem”. Foi uma grande lição para mim. Se eu não os vejo, eles não podem me machucar. Então já fazem três anos desde a vitória e eu até que tenho gostado dos meus haters, porque quando eu leio o que eles escrevem ou ouço o que eles dizem, eu percebo que são besteiras, que eles têm muito medo daquilo que desconhecem e eu entendo isso. Eu acho que com o tempo eles vão acabar entendendo também.

Vocês são muito más umas com as outras no programa, isso é verdade ou é edição pelo show?
Raja: Eu acho que é uma competição e os produtores sabem como escolher diferentes pessoas para que haja esses tensionamentos. Eu não acho que a série faria tanto sucesso se todo mundo simplesmente se abraçasse, se amasse e dissesse como são lindos. Eu ficaria entediado vendo isso. Quando eu assisto um programa de televisão, eu quero ver tensão, drama. E Drag Race tem isso. Ainda que nós nos montemos, nós ainda somos basicamente garotos. Esse é o nosso esporte, é o nosso futebol. E muitos de nós nos tornamos verdadeiros amigos, trabalhamos em muitos lugares juntos. E são tantas drag queens, existe muita sororidade, somos uma comunidade e, inclusive, uma indústria.

Como uma vencedora, você tem sido convidada a participar de eventos para arrecadar fundos a causas sociais e do movimento LGBT?
Raja: Eu apoio muitas causas, mas eu acho que deveria participar mais, dedicar mais tempo a isso. É algo que eu quero fazer mais, até pela posição que eu ocupo. Não é algo que eu acho que faça o bastante, tanto quanto deveria.

Raja também está investindo na música, já lançou três singles. O que podemos esperar daqui por diante?
Raja: Eu nunca me considerei um músico ou um popstar. Eu estou aprendendo muito, eu sempre amei a música e agora consigo me expressar nesse sentido. Minhas influências são multiculturais, estou tendo muitas ideias. Eu tenho um apreço muito grande pela cultura oriental, pela mitologia, pela espiritualidade e pela iconografia, gosto de brincar com esses elementos. Eu não sei exatamente onde isso vai parar, mas vou continuar me expressando de várias formas e a música certamente será uma delas. Eu sei que não sou Adore DeLano, que tem um talento incrível, e não sou Courtney Act. Elas têm seus pontos fortes, ver tanta rainhas poderosas me fez perceber também onde está a minha força, que está no fato de eu conseguir me expressar visualmente.

Como foi seu tour pelo Brasil?
Raja: Maravilhoso. Eu nunca pensei que fosse voltar ao Brasil. Eu vim para cá há muitos anos, quando estava trabalhando em America’s Next Top Model, antes de Drag Race. Fiquei em São Paulo, mas estava trabalhando muito e acabei não fazendo muito turismo. E agora visitei três cidades diferentes: Recife, São Paulo e Porto Alegre – que é como São Paulo, só que mais tranquila e aconchegante. E o churrasco! Meu Deus! A primeira coisa que eu fiz quando cheguei foi comer um churrasco.

Que referências do Brasil você mais lembra?
Raja: Em palavras, eu sei dizer “ativo”, “passivo” e “versátil”, que eu prefiro chamar de Versache. Na minha primeira visita ao Brasil, eu me perguntava: como será que é esse país? Eu imaginava um país com muita natureza preservada e eu achava que todo mundo era sexy no Brasil, até mesmo avós e avôs, como se todo mundo natural e culturalmente tivesse muito sex appeal.

Ficou surpreso com a força da cultura Drag aqui?
Raja: Estou chocado. Os comentários e as mensagens de brasileiros vieram desde muito cedo para mim. Eu nem sabia como vocês nos assistiam, se Drag Race passava na televisão. Isso é maravilhoso. É incrível estar aqui, estou chocado, ver as pessoas tão entusiasmadas com meu trabalho me fez recarregar as energias.

Ouvi dizer que você gostou muito da Capirinha.
Raja: Eu já tinha tomado caipirinhas antes. Eu acho que é uma bebida bastante adequada para mim, é uma experiência muito forte, que mistura o sabor cítrico do limão com o doce do açúcar. Eu amo caipirinhas.

E o que você diria para quem está começando a se montar?
Raja: Encontrem-se. Sejam criativos. Não copiem ninguém. Tenham suas inspirações, seus modelos, mas não copiem. Porque drag começou como uma revolução, e é algo que deve ser sempre tratado desta forma um pouco revolucionária, política e espiritual. Outro conselho importante é: divirtam-se, sempre! Se eu não me divertisse, não estaria fazendo nada do que faço, de forma alguma.

Samir Oliveira
Author

Acabei me descobrindo jornalista enquanto observava o mundo de fora e militante LGBT enquanto experimentava a vida de dentro.

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