O meu primeiro contato com a cultura drag foi uma decorrência de um dos meus primeiros contatos com o entretenimento LGBT em geral. Com a ideia – revolucionária para um guri de 18 anos recém-feitos – de que existiam espaços onde eu poderia ser mais livre, mais leve e mais feliz. Ser mais eu, afinal. Era o verão de 2006 e eu estava recém começando a frequentar as festas LGBTs em Porto Alegre. Aliás, naquela época ainda se usava o termo “GLS”.

Uma breve pausa: não posso deixar de solicitar um minuto de silêncio ao constatar que 2006 já é considerado “naquela época”.

Mas não foi na Capital que tive minha primeira experiência com a cultura drag. Foi no litoral. Em Tramandaí havia a única casa noturna LGBT de todo o Litoral Norte gaúcho. Era o saudoso Sunga’s Bar. Um cubículo que milagrosamente (certamente pelos poderes de Cher) abrigava uma pista de dança, um palco, um bar, um arremedo de pátio externo, uma sala com exibição de filmes pornográficos e, claro, um dark room.

Foi no Sunga’s Bar que vi a primeira apresentação artística de uma drag queen. Até hoje nunca vou esquecer a performance memorável da Castanha, que dublou “Vai Wilson, vai” com maestria. Castanha, para quem não sabe, é uma personagem histórica da cena transformista. Inclusive há um longa-metragem que leva seu nome e um pouco de sua arte, dirigido pelo gaúcho Davi Pretto.

“A gente costuma crescer achando que não existem outros LGBTs no mundo”

A performance de Castanha me marcou. Eu ainda estava desbravando um mundo novo para mim: o de festas e ambientes de sociabilidade onde eu podia sair livremente com meus amigos, flertar, beber, dançar e absorver todo tipo de referência cultural que a heteronormatividade sempre manteve bem distante. A gente costuma crescer achando que não existem outros LGBTs no mundo. Que somos os únicos e, portanto, que deve ter alguma coisa errada conosco. Até que um dia eu descobri que somos muitos. Que somos incrivelmente diversos e criativos. E isso me fortaleceu.

Ru Paul’s Drag Race

Recentemente, a cultura drag parece ter ganhado um novo impulso. Uma nova onda de visibilidade se espalhou a partir do surgimento do seriado RuPaul’s Drag Race, um reality show dirigido pela maior celebridade drag dos Estados Unidos, Ru Paul. Ou mama Ru, como costumam dizer suas filhas – e elas são muitas. De 2009 para cá, foram oito temporadas, além de duas séries especiais onde competiam apenas ex-participantes. A nona temporada já está saindo do forno, deve estrear em julho deste ano.

Ao todo, mais de 100 drags já passaram pela competição. Não é exagero dizer que muitas delas redefiniram ou consolidaram completamente suas carreiras a partir da exposição obtida no reality show. Com prêmios milionários e patrocinadores de peso (grandes marcas de cosméticos, de perucas, de vestidos, acessórios e joias), RuPaul’s Drag Race se converteu em uma verdadeira indústria de entretenimento drag, com projeção internacional.

Eu sou um fã da cultura drag e vi absolutamente todas as temporadas de RuPaul. Gritei diante das tretas. Vibrei quando minhas preferidas ganharam. Odiei a Phi-Phi O’Hara um milhão de vezes. E sei na ponta da língua muitos bordões. Mas nada disso me impede de refletir sobre os limites deste tipo de exposição, a utilidade de seus discursos e a necessidade de construirmos narrativas próprias e independentes.

Drags locais

No Brasil, a arte drag está sendo revigorada e reinventada por jovens talentos que deixam qualquer um de queixo caído. Em Porto Alegre, especificamente, me alegra muito ver uma cena drag criativa e rebelde. Ver que existem trocas e diálogos entre as referências e as que estão começando agora. Ver que já existem famílias se consolidando, como a maravilhosa Sarah Vika e sua filha Vitz Vika. Ver que as mais distintas inspirações e estéticas moldam a arte de nomes como Charlene VoluntaireCassandra Calabouço, Belle Z, Rebeca Rebu, Eva King, Sayuri, Ayo e tantas outras. É até uma injustiça eu me atrever a citar nomes aqui, pois certamente estou – por esquecimento ou por ainda não conhecer – deixando de mencionar muitos talentos. Temos, inclusive, um drag king: León Rojas, que questiona os padrões de masculinidade através de sua arte.

A rebeldia sempre fez parte da cultura drag. Não é à toa que a revolta de Stonewall foi protagonizada por drag queens e travestis. Em agosto de 2016, em uma apresentação no Vitraux – uma das casas noturnas LGBTs mais antigas de Porto Alegre – a Alma Negrot transformou sua performance em um grito de luta contra a violência policial. Outra drag ergueu um cartaz com os dizeres “Fora Temer” e incendiou o público.

Diversas festas têm surgido com a ideia de promover a cultura drag. Muitas delas trazem drags famosas, ex-participantes de RuPaul’s Drag Race, o que costuma atrair um público considerável. É uma estratégia inteligente, se aliada com o devido espaço para apresentações das drags locais – o que me parece estar ocorrendo na maioria dos casos. Nós precisamos apoiar cada vez mais as drags das nossas cidades. Elas são fabulosas. Inclusive se você é fã de alguma, aproveite este espaço para comentar e divulgar seu trabalho. A nossa diversidade é o que nos fortalece!

Crédito da foto: Fernanda Piccolo.

Samir Oliveira
Samir Oliveira
Acabei me descobrindo jornalista enquanto observava o mundo de fora e militante LGBT enquanto experimentava a vida de dentro.
http://vos.social/igualmente/

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