– Em resumo, fomos desmascarados – diz uma figura séria e sisuda, de óculos fundo de garrafa, posicionado na cabeceira da mesa. Enquanto fala, um serviçal enxuga de modo meticuloso os pingos de suor amarelado que surgem na careca e ameaçam escorrer pela testa da figura que preside a reunião.

– Sem essa. Besteira – retruca um dos presentes, homem já idoso mas ainda dotado de farta cabeleira, óculos de sol suaves que ameaçam escorregar pelo amplo narigão.

Os demais presentes, por sua vez, mantêm um preocupado silêncio. Sabem que um encontro daqueles não seria convocado em nome de besteiras. A figura que preside a reunião segue imperturbável. Com um rápido olhar, ordena ao serviçal que abra um notebook colocado a seu lado, de forma que todos os demais na mesa possam ver o que está na tela.

Como a figura na cabeceira da mesa não tem braços, cabe ao serviçal operar o mouse e fazer os comandos necessários. Surge uma página de notícias brasileira. Nela, está a manchete:

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Dante Mantovani, novo presidente da Funarte, diz que ‘rock leva ao aborto e ao satanismo’

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Nenhum dos presentes entende uma palavra em português, de modo que nenhum deles esboça qualquer reação. Com um clique, o serviçal aciona a tradução automática do Google. A manchete surge reescrita, agora em inglês:

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Dante Mantovani, Funarte’s new president, says ‘rock leads to abortion and satanism’

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A compreensão desperta um denso e preocupado silêncio. Durante vários segundos, só se ouve o som monótono do ar condicionado, ligado em modo ventilação. Os presentes trocam olhares, mexem-se desconfortáveis em suas cadeiras.

– O que é Funarte? – pergunta um senhor de cabelo pintado e rosto fino, com barba rala e bigodinho.

– Não importa, Ritchie – responde o homem ao seu lado, um senhor que talvez parecesse respeitável, não fossem os mullets e as roupas coloridas que usava. Parecia alguém vindo às pressas de alguma praia do Havaí. Instantes depois de interromper o amigo, dirige-se ao cabeça da reunião. – Isso… É no Brasil, Theo? Essa pessoa faz parte do governo do Brasil?

– Adorno, George. Me chame de Dr. Adorno – responde ele, seco.

– OK, desculpe – corrige-se George. – Essa pessoa é do governo brasileiro, Dr. Adorno?

A cabeça mumificada de Theodor W. Adorno olha novamente para o serviçal. Este, obediente, ergue a bandeja onde ela está localizada – única parte que resta do corpo do filósofo – e a deposita um pouco à frente. Aparentemente, a luz da tela o estava incomodando.Neste momento, de forma inesperada, a porta da sala abre-se abruptamente. Um senhor de rosto inconfundível surge, esbaforido.

– Desculpem, rapazes – balbucia, com uma voz que parece feita para cantar músicas sobre como o dinheiro não é importante, pois o dinheiro não é capaz de comprar amor. – Tivemos mau tempo e o pouso demorou.

Há apenas uma cadeira vazia, ao lado do idoso cabeludo e de óculos de sol.

– Oi, John – diz o recém-chegado, sentando-se.

– E aí, Paul – responde John Lennon, com um tom irônico na voz.

Após ter certeza que todos estavam de novo concentrados nele, Adorno recomeça a falar.

– Senhores, desde que o governo de Jair Bolsonaro assumiu no Brasil, a posição de nossa grande revolução cultural  global encontra-se em risco. Enquanto era só aquele Olavo de Carvalho falando sobre eu ter escrito as músicas dos Beatles, estava tudo sob controle: nosso uso massivo da indústria cultural impedia que qualquer ideia contrária ao Grande Plano tivesse credibilidade. – Faz uma pausa, como quem estivesse com um pigarro na garganta, embora sua voz fosse produzida por um sintetizador digital. – Mas a coisa tornou-se perigosa para nós. Bolsonaro destruiu todas as barreiras que criamos, e dissemina informações sensíveis via redes sociais.

– Nosso acordo com Mark não era esse – interrompe Paul McCartney, muito interessado.

– Zuckerberg não é confiável. Nunca foi – resmunga George Harrison, em tom taciturno.

– Seja como for – retoma Adorno, aparentemente irritado com a interupção – nosso segredo está sendo revelado para mais e mais pessoas, através de grupos de WhatsApp. E agora este senhor, Dante Mantovani, está no governo. E ele sabe de tudo.

– Ora, vamos, Theo. Ele não pode saber de tudo – diz John Lennon, incrédulo e desaforado.

O notebook está, agora, ao lado da cabeça morta-viva de Theodor Adorno. Fazendo uso de um espelho, trazido pelo serviçal, ele lê trechos da reportagem:

– “Além dos temas mais técnicos da música erudita, Mantovani discute aspectos da cultura relacionados à filosofia. Em um dos vídeos, ele relaciona Adorno, teórico da Escola de Frankfurt, com os Beatles e reforça teorias da conspiração de que havia infiltrados comunistas na CIA, serviço de inteligência americano. ‘A União Soviética levou agentes infiltrados para os Estados Unidos para realizar experimentos com certos discos, realizados inclusive para crianças'”.

O silêncio volta a cair pesado na sala.

– “O rock ativa a droga, que ativa o sexo, que ativa a indústria do aborto. A indústria do aborto, por sua vez, alimenta uma coisa muito mais pesada, que é o satanismo. O próprio John Lennon disse abertamente, mais de uma vez, que ele fez um pacto com o diabo para ter fama e sucesso”.

– Filho da mãe – resmunga Lennon, agora tão preocupado quanto os demais.

– Caiu a casa, então? – a voz de Ringo Starr surge alta, quase como um grito. – O que a gente pode fazer?

– Teremos que fazer alguma coisa – afirma McCartney, com voz fria. – No que você está pensando, Dr. Adorno? Talvez no… – Um momento de hesitação. – Plano Leslo?

– Você está louco – grita George Harrison. – Eu não vou sair da minha aposentadoria agora!

– Talvez seja necessário, George – tenta atalhar Ringo.

– Não venha com essa, Ritchie. Eu estou aposentado, cumpri todas as metas do Grande Plano, não quero mais nada com isso! De mais a mais, como vamos explicar que eu e John estamos vivos até hoje? Já foi uma barra daquelas transformar o Billy em Paul McCartney depois que precisamos…

Interrompeu-se bruscamente. Os olhares de reprovação eram gerais.

– Eu sou Paul McCartney, George – acentua Paul, com um desagrado quase irreconhecível na voz. – Eu sempre fui, e sempre serei Paul McCartney. Billy Shears é só uma teoria de conspiração. Ele nunca existiu. OK?

– OK, me perdoe, Paul. Mas ainda assim, não tem como acionar o Plano Leslo agora. Free As a Bird foi divertida de gravar, mas vimos os riscos já naquela época. Algumas pessoas suspeitaram do papo de “gravações quase perdidas”. É perigoso. Não dá para fazer uma turnê de reunião. Vamos precisar pensar em outra coisa!

– Pois eu acho que seria uma ótima ideia – diz então Lennon, após uma curta risada. – Combater uma teoria maluca de conspiração transformando uma teoria maluca de conspiração em realidade! “Os Beatles estão de volta! John e George nunca morreram! Turnê mundial com participação especial de Theodor W. Adorno nos backing vocals!”

– Exato – acrescenta Adorno. A expressão de seu rosto morto é singular: se ele ainda tivesse um corpo, talvez se pudesse dizer que esfregava as mãos de satisfação. – Vivemos tempos em que o tecido da realidade está rasgado. Para evitar a ruína do Grande Plano, talvez seja hora de abrir mão da realidade de vez. Revelar que dois Beatles estavam vivos esse tempo todo renderá uma atenção midiática inédita na história. Todas as atenções estarão direcionadas para nós. Será um potencializador fantástico para nossa mensagem. O mundo estará cantando she loves you yeah yeah yeah, e as revelações desse Sr. Mantovani serão definitivamente desmoralizadas.

Enquanto Adorno falava, o ânimo dos presentes mudou. Antes preocupados e irritadiços, todos pareciam mais confiantes, convencidos. Mesmo George Harrison sorria de leve.

– Senhores, é a hora dos Fab Four reconquistarem a música pop – a voz digital do filósofo se erguia, em inusitada empolgação para alguém tão austero. – Uma nova beatlemania! Com os atuais recursos de palco, podemos fazer shows de várias horas sem que isso seja cansativo para o público ou para vocês. Posso inclusive entregar algumas músicas novas, lançar um novo single no Spotify, um documentário para o Netflix. E então, temos um acordo?

Um a um, os quatro músicos uniram as mãos. Ringo tinha uma lágrima de emoção escorrendo lentamente pelo rosto.

– Serviçal, faça uma ligação – disse então Adorno, retomando a sisudez, mesmo que ainda sorrisse. – Temos que agendar uma turnê.

Foto: Montagem sobre fotografia de Dante Mantovani (Reprodução) e Theodor Adorno (Reprodução).

Igor Natusch
Author

Jornalista e escritor. Tem especial interesse em Direitos Humanos, política e direitos fundamentais na internet. Liberdade para o ser humano, não para as instituições que o oprimem. Acredita que toda ação e posicionamento tem o poder de transformar o mundo.

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