– Eu estava pensando…

– Pelo amor de Deus, amor, não fale isso em voz alta!

– Sim, desculpe – baixou o tom de voz. – Eu estive pensando, sabe.

– Mas como assim? Desde quando você pensa?

– Ah, não faz muito tempo. Umas duas semanas, talvez. Três, no máximo.

– E por que não me disse nada antes?

– Acho que tive um pouco de… Receio – a voz, além de quase cochichada, era cautelosa, escolhendo as palavras. – Nunca se sabe como os outros vão reagir, sabe como é.

– Mas de mim você não precisa ter medo.

– Sim, eu sei. Mas, logo que comecei a pensar, eu fiquei em dúvida. E preferi esperar um pouco. Entende? Vai que é só uma fase. Vai que, no dia seguinte, eu parasse de pensar.

– É, faz sentido. Mas, pelo jeito, você segue pensando.

– Isso. E não está passando, sabe. Pelo contrário. Estou pensando cada vez mais.

– Você precisa tomar cuidado.

– Eu sei, amor. Eu sei. Mas tento ser discreto. Penso só quando estou sozinho. Com o celular desligado.

– Mas desligar o celular é proibido! Não brinque assim – Chegou a gaguejar de preocupação. – Vai que… Eles acreditam.

– Desculpe, amor. Você tem toda a razão. Foi uma brincadeira fora de hora. Me perdoe.

Seu aparelho celular estava no bolso. Logo após falar, ele voltou os olhos para a esposa e disse, apenas movendo os lábios:
“Eu espero descarregar a bateria.”

Ela entendeu e, um pouco alarmada, fez que sim com a cabeça.

– Mas enfim, a verdade é que ando pensando – recomeçou ele. – Ainda não é crime, eu sei, mas as leis mudam tão rápido! Ando um pouco preocupado com isso. Talvez eu precise de tratamento.

– E como é pensar? – perguntou ela, em um impulso. – Eu… Não lembro muito bem como era.

– É esquisito. Você pega as frases e, tipo, junta elas na cabeça. E aí algumas frases não fazem sentido juntas. Mas outras fazem, e quando elas se juntam surgem… Outras coisas. Não sei explicar direito.

– Isso parece bem perigoso.

– Eu diria que é mais cansativo, sabe. Eu começo a pensar e, logo em seguida, fico exausto e preciso parar. Deve ser falta de prática.

– Não, estou falando sério. É perigoso. Como ficam as informações que recebemos todos os dias no celular, se a gente começa a fazer… Isso daí que você faz? Como ficam as nossas certezas? Daqui a pouco vão achar que bandido bom é bandido vivo, ou que o nazismo… – Fez o sinal da cruz. – Não é de esquerda!

– Pare com isso! – Agora era ele quem parecia alarmado. – Não pensei nada disso. Não fique colocando ideologias na minha cabeça! Inclusive, olhe como está bonita a minha suástica – Apontou para o bracelete nazista, bastante vistoso, que ostentava no braço esquerdo.

– Sim, é realmente linda – concordou ela.

– Mas… Esse é o problema de pensar – retomou ele, novamente cauteloso. –  Porque, se o nazismo é de esquerda, e a esquerda é a personificação de todo o mal… Então por que nós, que somos da direita divina, somos encorajados a usar um bracelete nazista? Ele não é um símbolo dos nossos inimigos? De tudo que a gente detesta?

– Credo – quase gritou ela, enquanto espantava ideias com a mão. – Não fale bobagem. O nazismo é de esquerda, as suásticas são uma forma de humilhar os esquerdinhas. Está tudo claro. Não comece a inventar moda!

– Você tem razão – assentiu, respirando fundo.

O silêncio foi longo. Do lado de lá da janela, começava a surgir entre as nuvens um bonito pôr-do-sol.

– Amor?

– Sim?

– No que você estava pensando?

– Deixe para lá – sua voz era pensativa e, ao mesmo tempo, receosa.

– Ah, não faça assim. Você pode confiar em mim.

– Posso?

– Pode.

– Bem, então… Eu estava pensando e, pela lógica… A Terra não pode ser plana.

– AH NÃO, AMOR! PELO AMOR DE DEUS!!!

Foto: Sheila Tostes / Flickr

Igor Natusch
Author

Jornalista e escritor. Tem especial interesse em Direitos Humanos, política e direitos fundamentais na internet. Liberdade para o ser humano, não para as instituições que o oprimem. Acredita que toda ação e posicionamento tem o poder de transformar o mundo.

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