Em meio à gritaria e à sucessão de acontecimentos envolvendo o lamentável encerramento da mostra Queermuseu, no Santander Cultural de Porto Alegre (acontecimento que abordei, numa pegada um tanto diferente, em meu perfil no Medium) uma aparentemente pequena, mas na realidade bem significativa mudança de posição passou quase despercebida. Trata-se do prefeito de Porto Alegre, Nelson Marchezan Júnior, que postou em redes sociais uma mensagem que parecia endossar, sem qualquer crítica, os argumentos usados no ataque às obras – apenas para, poucas horas depois, deletar tudo sem comentários e sem explicações.

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Claro que nada há de intrinsecamente errado em postar algo e, pouco depois, arrepender-se. Convenhamos, quem nunca? O que interessa, aqui, não é o gesto em si, mas o recuo que ele traz, de todo incomum em um prefeito que se esmera em manter uma imagem de convicto e determinado. E é claro, os motivos que levam a essa reconsideração

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É bastante claro que o MBL, tão destacado nos protestos que levaram ao fim o governo de Dilma Rousseff, tem corrigido a rota de seu discurso nos últimos tempos. A luta contra a corrupção, fundamental em seu surgimento e que alçou seus jovens líderes ao insólito status de referências no tema, deixou de centralizar as ações do grupo – cedendo espaço a uma oposição menos política e mais, digamos, moral aos supostos pecados da esquerda.

Na medida em que enfraquece a suposta disposição de punir todos os corruptos, doa a quem doer – uma vez que não é possível apagar da internet todas as mensagens de apoio do MBL a Geddel Vieira Lima, Aécio Neves, Eduardo Cunha e tantos outros – surge forte o combate à suposta doutrinação ideológica promovida pelos inimigos, em especial contra a juventude indefesa. Depois da cruzada contra a lavagem cerebral nas escolas de São Paulo, surge a luta contra a imoralidade na arte, tudo em uma linguagem superlativa que beira a carolice.

A ideia é clara: aproximar o MBL dos núcleos mais conservadores, ao mesmo tempo que joga com o senso comum e com angústias primais de boa parcela da população. Engaja, com esse apelo ao moralismo chão e sem nuances, diferentes tipos de medo, diferentes preconceitos, diferentes obsessões. Talvez se possa dizer que distancia-se de Aécio e anda na direção de Bolsonaro, ou ao menos daqueles que nele desejam votar ano que vem. É um movimento de alinhamento político e, neste momento, é impossível dizer se vai funcionar ou não. Eu, pessoalmente, não duvidaria.

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A questão: esse movimento é interessante para Marchezan?

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Que o prefeito é no mínimo simpático ao MBL é sabido desde o começo de seu mandato. Traz pessoas próximas ou inseridas no grupo em diferentes esferas do Executivo, recebe alegremente integrantes em seu gabinete e adota, como já referi antes por aqui, uma postura de fidelização midiática que tem muito a ver com o modo que o MBL escolheu para fazer política.

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Até então, essa agenda vinha sem oscilações; neste começo de semana, porém, houve uma mudança. Talvez pela primeira vez em todo o governo, Marchezan recuou. O que causou esse passo atrás?

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Ler qualquer uma das declarações do secretário de cultura de Porto Alegre, Luciano Alabarse, após o fechamento da exposição ajuda a entender esse movimento. Mesmo longe da unanimidade, Alabarse é um homem da cultura, fortemente inserido no meio e que jamais poderia aceitar (como não aceitou) o encerramento de uma mostra de arte em meio a um verdadeiro frenesi de moralismo, como foi o caso. Ao mesmo tempo, é um dos mais enfáticos e leais secretários de Marchezan, ao ponto de escrever um artigo um tanto quanto caricato ao jornal Zero Hora, comparando o prefeito a Caetano Veloso. Some-se isso tudo ao post de Marchezan falando em pedofilia e zoofilia na exposição Queermuseu e teremos, senhoras e senhores, uma conta que não fecha.

Pela primeira vez, Marchezan viu-se diretamente confrontado com as dificuldades políticas envolvidas em sua aproximação com o MBL. Antes apenas sorvendo os bônus dessa parceria, teve que entender, na marra, que essa brincadeira tem seus ônus também – e que nem todos combinam com a imagem de político dinâmico, convicto e moderno que Marchezan anseia para si.

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Nada há de moderno em proibir acesso à arte, ao contrário: trata-se do que de mais velho, rançoso e retrógrado pode existir na política e no pensamento como um todo

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Se a primeira reação, dele ou da equipe que opera suas contas nas redes sociais, foi dentro do fluxo comum entre ele e o MBL, logo ficou claro que era um passo arriscado demais, com custos pesados a curto e médio prazo. Se o MBL corteja a extrema-direita com entusiasmo crescente, talvez ir tão fundo nisso não interesse tanto assim ao prefeito – afinal, governar uma cidade mergulhada numa caça às bruxas no campo artístico, com repercussão nos maiores veículos da mídia internacional, não é exatamente um predicado animador.

A patética sucessão de acontecimentos que encerrou prematuramente uma mostra artística no coração do centro de Porto Alegre pode trazer aprendizado, ainda que à força, a vários núcleos. Inclua-se na conta o Santander, que tentou escapar de um desgaste e mergulhou em outro de potencial talvez ainda maior, e o próprio MBL, que já adota uma postura mais defensiva e deu até declarações a rádios locais se distanciando do fim da mostra – como um pai que ainda quer ser reconhecido como tal, mas se recusa a embalar a criança que gerou. E suspeito que também a política local recebe um recado com o episódio: a de que a viagem de carona no trem festivo do MBL não será sempre um mar de rosas.

Foto: Guilherme Santos/Sul21

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Jornalista e escritor. Tem especial interesse em Direitos Humanos, política e direitos fundamentais na internet. Liberdade para o ser humano, não para as instituições que o oprimem. Acredita que toda ação e posicionamento tem o poder de transformar o mundo.

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