Um dos aspectos mais insuportáveis do governo Bolsonaro é o modo como ele nos abriga a tratar sempre dos mesmos assuntos. É uma consequência natural de qualquer processo humano movido pelo recalque: por mais que se disfarce a ideia fixa detrás de discursos elaborados e tergiversações diversas, a mancha suja está sempre na mente. O recalcado não consegue esquecer o foco de seu rancor nem quando toma um copo d’água: é o que é, ou pelo menos aquilo em que permitiu a si mesmo se transformar.

Paulo Guedes não é exatamente um recalcado. Possivelmente o seja em alguns ou vários aspectos, é claro: porém, não é em nome de sua mágoa individual que comete frases odiosas como a que comemora a alta do dólar, dizendo que isso de empregada doméstica viajar para a Europa já tinha virado bagunça. É em nome do recalque alheio, isso sim.

O ministro da Economia sabe que, no imaginário brasileiro, existir é ter alguma coisa. E que essa distinção passa também pelo não-ter dos outros: se eu ganho ou tenho um pouco mais, eu tenho alguma ascendência sobre os que menos (ou nada) têm.

É por isso, por exemplo, que os auto-proclamados patriotas desprezam tudo que remeta ao “povão”: o povo é pobre, e ser pobre é personificar tudo que não presta, em mais de um sentido. Para alguém que vive a ilusão de ser rico um dia, o pobre é tudo de que se quer distância. Se uma empregada doméstica (uma serviçal, uma lacaia!) se torna capaz de juntar uns trocados e planejar uma viagem, a fronteira fica mais tênue. O que se acha alguma coisa fica mais próximo daqueles que não têm direito a nada, apenas a serem pobres e morrer.

O governo Bolsonaro joga desde o início com esse ressentimento. E Paulo Guedes sempre esteve nesse barco: a diferença é que agora está se sentindo mais à vontade para usar o ódio de classe como cartada de legitimação.

É um discurso cruel. E que dá à política econômica um papel ativo na construção da grande ilusão, no resgate da pátria que sempre esteve lá e, ao mesmo tempo, nunca existiu. Não pode restar dúvida de para qual lado se espera que a economia cresça, nesse caso.

O Brasil reacionário segue excludente, mas sente saudades de excluir ainda mais. E Guedes diz: excluiremos. Essa festa danada de pobre achar que é gente vai acabar. Podem deixar com a gente.

Ninguém pode abraçar uma perversidade tão explícita e achar que não é perverso. Pode fingir não ser, e talvez até engane algumas – ou muitas – pessoas. Mas a perversidade estará lá, como uma mancha que estraga o vermelho da maçã, podridão que consome de dentro para fora.

Foto: Wilson Dias/Agência Brasil
Igor Natusch
Author

Jornalista e escritor. Tem especial interesse em Direitos Humanos, política e direitos fundamentais na internet. Liberdade para o ser humano, não para as instituições que o oprimem. Acredita que toda ação e posicionamento tem o poder de transformar o mundo.

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