No Rio Grande do Sul (e em boa parte do Brasil, imagino), é comum o uso de cães junto a rebanhos de ovelhas – seja para ajudar no pastoreio, seja para manter predadores (e ladrões) afastados. O Estado tem até sua própria versão de cão pastor, o ovelheiro-gaúcho, talhado especificamente para esse tipo de tarefa. De modo geral, os animais gostam de se sentir úteis, e realizam as tarefas com grande dedicação. Alguns cachorros, porém, acabam se desviando: pegam gosto por caçar as ovelhas e devorá-las.

Esses, como diz o gaúcho do campo, só matando.

Lembro do meu pai contando, quando eu ainda era bem novo, sobre as experiências que tivera com cachorros comedores de ovelha. Ele morava na zona rural de São Gabriel, na fronteira oeste do Rio Grande do Sul, e dizia ter visto uma ovelha caçada por cachorro, ainda viva. O processo é tão brutal quanto eficaz: o cachorro corre, a ovelha tenta fugir, e o caçador, ao invés de atacar no pescoço ou no lombo da presa, apenas agarra a lã com os dentes, dando um puxão que, em meio à correria, acaba causando ferimentos graves. Às vezes, a ovelha consegue fugir mesmo assim; às vezes, não. A ovelha que meu pai viu quando garoto tinha fugido, mas estava mal: o puxão tinha arrancado um grande naco de carne, deixando as costelas à mostra.

Eu nunca vi um cachorro comedor de ovelha, mas quem viu diz que o bicho fica viciado – tanto na carne crua recém-abatida, quanto na adrenalina da caçada. Alguns caçam apenas por prazer, sem sequer devorar de fato a presa; outros, ao contrário, param de comer da tigela e recusam qualquer outra comida que lhes seja servida, só demonstrando interesse pelo gosto do sangue fresco.

Em qualquer caso, a sabedoria do gaúcho diz que só existe um jeito de evitar o prejuízo na criação: levar o cachorro ovelheiro para um lugar isolado e matá-lo. Mesmo que goste muito dele, mesmo que seja um animal fiel e tudo o mais. Porque cachorro viciado em ovelha não se emenda. Não presta para mais nada. Só matando.

Imagino que muitos gaúchos tenham, no decurso das décadas, tentado salvar a vida de cachorros viciados em ovelha. Às vezes os piás gostam do bicho, e o pai não quer deixar as crianças tristes. Às vezes o cão livrou o dono de situações difíceis, o que gera um sentimento de gratidão. Talvez, no passado, o animal tenha sido o melhor pastor de ovelhas da fazenda, e o dono sinta pena de se desfazer de uma criatura que foi tão eficiente no passado. Ou pode ser que o gaúcho rude simplesmente não queira a missão de abater um cachorro, um animal tão próximo, com que se desenvolve laços diferentes do que se tem por uma vaca, um porco, uma ovelha.

Um esforço quase bonito, dependendo do caso – mas, ainda assim, infrutífero.

É a vida, simples assim. Alguns não se emendam – sejam animais selvagens, domesticados ou seres humanos, mesmo. Para alguns indivíduos, o desvio é sua própria natureza: é o que os define, o comportamento mais natural, o resumo de tudo que são e ambicionam ser.

Eles caçam ovelhas, reais ou figuradas. Eles buscam o cheiro de sangue, sentem um impulso incontrolável pela destruição.

Um viciado em ovelhas, seja de que espécie for, pode tentar mudar a rota, sim. Pode tentar modular seu discurso, por exemplo. Mas funciona por um ou dois dias, no máximo: logo volta a espalhar dor e discórdia, a cometer gestos vis, dizer todas as barbaridades que habitam sua mente doentia.

Pode ser que o caçador faça sinais de conciliação, ou talvez ele prefira gritar aos quatro ventos seus delírios homicidas. Nesses casos, não se deve levar em conta a primeira fala, e é preciso prestar toda a atenção na segunda.

Você pode adestrá-lo, pode pedir que se controle, implorar que tome juízo. Pode torcer que o ambiente o eduque, que as pressões sobre ele consigam colocá-lo na linha, que o risco da punição definitiva seja suficiente para evitar que ele continue matando. Pode inclusive achar que, depois de devorar algumas ovelhas, ele vá ficar de estômago cheio e parar com a matança, ao menos por algum tempo.

Tudo ilusão: ele não vai parar. Nunca.

Diante da caça, o cachorro que devora ovelhas entrará sempre em frenesi. Não parará nem mesmo diante do fim, podem acreditar. Mesmo isolado, mesmo encurralado ou na iminência do tiro fatal, ele vai sempre lembrar do gosto do sangue. E vai arreganhar os dentes. Ansiando por mais.

Sou gaúcho, mas não sou do campo, como vocês sabem. Ainda assim, creio que a sabedoria de quem vive no pampa é correta: quando se conclui que o cachorro virou caçador de ovelhas, o tempo de esperar que algo aconteça já passou. Quanto mais rápido a gente se livra dele, melhor.

Foto: Pxhere / Creative Commons

Igor Natusch
Author

Jornalista e escritor. Tem especial interesse em Direitos Humanos, política e direitos fundamentais na internet. Liberdade para o ser humano, não para as instituições que o oprimem. Acredita que toda ação e posicionamento tem o poder de transformar o mundo.

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