Com uma crise (ou mais) por semana no continente, me sinto mal em repetir o tema “Uruguai” na terceira coluna que escrevo para o Vós. Mas é do pequeno país de 3 milhões de habitantes que vêm os melhores exemplos políticos da América do Sul. E, diante da imensa turbulência pela qual passamos, é nos uruguaios que devemos buscar inspiração.

As eleições deste domingo (24) devem confirmar a vitória de Luis Lacalle Pou, do conservador Partido Nacional, à presidência uruguaia. As pesquisas e a lógica apontam para o fim dos 15 anos de governo da Frente Ampla. Não é necessário ir muito longe, no tempo ou no território, para perceber que as forças políticas que chegam ao poder não gostam de deixá-lo.

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Pois no Uruguai é diferente…
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O ex-presidente José “Pepe” Mujica deixou claro qual será o papel da FA caso os prognósticos se confirmem. “Se tivermos que ser oposição, seremos oposição, e não esperem que estejamos com uma pedra em cada mão”, afirmou em entrevista a uma rádio local. A frase não é de um político demagogo querendo parecer democrata. É discurso, mas é prática.

Em 2014, tive a oportunidade de encontrar Mujica. Era repórter de uma emissora de rádio de Porto Alegre e fui escalado para uma coletiva de imprensa do então presidente uruguaio no Palácio Piratini, sede do governo gaúcho. Estávamos em processo eleitoral e, naquele momento, Marina Silva era quem ameaçava as chances de Dilma Rousseff na corrida ao Planalto. Me posicionei na ponta da fila de jornalistas para a rodada de perguntas e preparei a minha.

– Presidente, o senhor conhece Marina Silva? O que acha da candidata que concorre contra Dilma Rousseff?

Dei azar. A assessoria de imprensa responsável pela organização do evento tinha montado duas filas. Apesar de eu ser o primeiro de uma, eles começaram pela outra e o colega que estava na ponta oposta fez justamente a pergunta que eu tinha planejado. A resposta de Mujica, no entanto, me marcou:

– Seria de mau gosto que eu, presidente do Uruguai, me pusesse a opinar sobre a política brasileira diante da imprensa – afirmou – Vocês que são brasileiros que se resolvam.

A resposta evasiva (e, aparentemente, tosca e grosseira como de um gaucho do campo) era mais do que isso. Mujica sabia que não cabia a um chefe de Estado estrangeiro opinar sobre as eleições de outro país.

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A postura poderia servir de modelo para outros líderes, como o brasileiro Jair Bolsonaro, que adora opinar sobre o voto alheio. Mas as lições democráticas de Mujica vão além. Com seus ideais, a oveja negra uruguaia sabe, todavia, que a realidade é que manda
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“Se a ideologia substitui a realidade, aí estás vivendo o fictício e isso te leva à ruína ou a conclusões fantasiosas, que não o são. Eu tenho que lutar para melhorar a vida das pessoas na realidade concreta de hoje e não fazê-lo é uma imoralidade. (…) Estou lutando por ideais, macanudo. Mas não posso sacrificar o bem-estar da gente por ideais. A vida é uma e é muito curta.”

Em uma América Latina que dá golpes, persegue e mata por ideologia (ainda que use o disfarce de ser contra ideologias), proponho o mujiquismo. Se não der certo, ao menos, vamos aprender com o velho.

Geórgia Santos
Author

Jornalista, radialista, cientista política e uma viajante inveterada. Tem uma relação de amor com a comida. Gringa, não recusa um vinho e uma polenta. Fez da viagem um objetivo de vida. Lisboa é um dos seus lugares preferidos no mundo, embora as melhores histórias estejam na Itália.

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