Depois de tantas crises espalhadas pelo continente, coube a Bento Gonçalves fechar o ano de 2019 no Mercosul. A cidade da serra gaúcha recebeu a Cúpula de Chefes de Estado do bloco econômico em um período de incertezas e de ruídos entre os países. O Brasil de Bolsonaro deixou clara sua mensagem aos povos (e, principalmente, ao diplomatas, ministros e presidentes) vizinhos.

O país, por intermédio do ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, defendeu a abertura do Mercosul à economia mundial. O chanceler defendeu acordos bilaterais mais flexíveis e parcerias com a Europa, além de países asiáticos, caribenhos e latino-americanos. Até aí, uma posição legítima. No entanto, o discurso pragmático tinha em si doses de olavismo.

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Araújo condenou o “socialismo”, tratando como uma força que para o trem do desenvolvimento da América do Sul

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Disse que o modelo foi aplicado no Mercosul pelos governos anteriores e pela Venezuela, que colocaram o continente no “fundo da caverna”. O chefe do Itamaraty foi mais longe: disse que o Brasil de hoje não age mais por ideologia.

O recado foi interpretado, por jornalistas e correspondentes que cobrem a Cúpula, como um recado à Argentina de Alberto Fernández, que assume o poder no dia 10 de dezembro. O peronista de centro-esquerda chegou ao poder com o apoio do kirchnerismo, uma vertente que, na economia, adota uma postura bastante protecionista no mercado.

Se Araújo e Paulo Guedes, o ministro da Economia, realmente não têm ideologia e vão se guiar pelo pragmatismo, deverão sentar para conversar com Fernández e seu novo gabinete. Se o governo Bolsonaro quiser imprimir uma postura mais flexível e liberal na economia – e repito, é legítimo – não vai poder tratar tratar um governo igualmente legítimo da forma como vem tratando. Se o Brasil quiser tratar o Mercosul  não mais como um “freio”, mas como um “acelerador”, conforme declarou o chanceler, vai ter que conversar com os russos… ou melhor, com os argentinos!

Foto: Alan Santos/PR

Geórgia Santos
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Jornalista, radialista, cientista política e uma viajante inveterada. Tem uma relação de amor com a comida. Gringa, não recusa um vinho e uma polenta. Fez da viagem um objetivo de vida. Lisboa é um dos seus lugares preferidos no mundo, embora as melhores histórias estejam na Itália.

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