No início da semana, decidi fazer uma drenagem linfática. Estava inchada e desconfortável. Tinha exagerado no final de semana  – muita comida e muita bebida – e tinha exagerado nas semanas anteriores. O resultado era visível no meu corpo. Eu precisava murchar. Chegando ao centro estético, a Lisiane Garroni, massoterapeuta, perguntou o que me incomodava. Eu respondi: tudo.

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Eu respondi que tudo no meu corpo me incomodava. Tudo.

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Corrigi imediatamente, mostrando as áreas de maior retenção de líquido, mas não tinha como esconder que eu falei que tudo me incomodava a respeito do meu corpo com uma velocidade impressionante, sem nem pestanejar. Ela terminou a drenagem e o efeito foi impressionante, eu estava menor, mais à vontade, mais confortável. Eu realmente precisava daquilo. Mas saí de lá pensando se eu realmente detestava tudo a respeito do meu corpo. 

Fui pra casa e fiquei pensando nisso. Olhei meu corpo no espelho e analisei cada detalhe. Cada celulite, cada estria, cada pelinho. A papada, os cravos e espinhas, as dobras e os pneuzinhos. Os pés chatos, as mãos gordinhas. O nariz batatinha, o cabelo arrepiado. O braço grande de polenteira, Tudo.

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Ali, parada e analisando todo o meu corpo, lembrei de todas as vezes em que me senti feia ou inadequada e as tantas vezes em que chorei por isso e fiquei chocada

Voltei pra quanto eu tinha 13 anos

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Desde os 13 anos eu sinto a pressão de não ser magra. Desde os 13 anos eu entro e saio de dietas. Desde os 13 anos eu comparo o meu corpo ao de outras meninas e mulheres. Desde os 13 anos eu me torturo psicologicamente para caber em um estereótipo que não é meu e que eu não quero.

Eu tinha 14 anos na foto da esquerda, em que estou com minhas amadas amigas de infância – e de até hoje. Me sentia horrível. Hoje, olho pra essa foto e amo cada detalhe. Na foto da direita, estava em uma viagem que fiz com meus pais. Eu lembro que me sentia enormeeee naquela época.

 

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Há 17 anos eu me sinto feia e inadequada, mas eu me recuso a seguir vivendo dessa forma
Ali, parada e analisando todo o meu corpo, lembrei de todas as vezes em que me senti feia ou inadequada e as tantas vezes em que chorei por isso e decidi que não mais
Hoje, eu resolvi me amar

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Fiz 30 anos em fevereiro. Chega. Não vou mais me martirizar por algo que sequer é um problema. Estou em processo de reeducação alimentar, comecei a fazer yoga, tento controlar meu peso e, eventualmente, faço procedimentos estéticos. Continuo reclamando da papada, do braço, da celulite e outras coisas. Mas agora eu também me acho bonita e não vou me sentir mal por isso.

Qual minha desculpa? Nenhuma. Eu faço o que quero e não faço o que não quero. Eu estou bem e quero continuar assim. Fazendo as coisas que gosto, comendo as coisas que gosto e, ao mesmo tempo, cuidando da saúde do meu corpo e, principalmente, da minha saúde mental. Hoje, eu resolvi me amar. E é muito bom – finalmente – dizer isso.

Nessa reminiscência, fui catar fotos da criança feliz – e gordinha – que eu era. Saca só as curvas da fofura =)

Geórgia Santos
Author

Jornalista, radialista, cientista política e uma viajante inveterada. Tem uma relação de amor com a comida. Gringa, não recusa um vinho e uma polenta. Fez da viagem um objetivo de vida. Lisboa é um dos seus lugares preferidos no mundo, embora as melhores histórias estejam na Itália.

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