Quando alguém começa a contagem regressiva e a mãe puxa aquela música cafona do “Adeus ano velho”, eu olho pra baixo e vejo, escorrendo pelo meu corpo, 365 dias de energias pesadas que frequentaram os mesmos lugares que eu e viram as mesmas pessoas e coisas que eu vi. Aos meus pés, uma poça daquele líquido imaginário, ácido e ao mesmo tempo extremamente amargo, corre em direção a um bueiro, espero eu, distante.

Finalmente, à meia noite, olho para cima. E o que acontece a partir daí é quase sobrenatural. Meu sorriso fica distendido, sorvo um ansioso gole de espumante e, em um colapso, não controlo o choro que vem de uma vereda familiar.

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É o universo que, em um rompante de generosidade, não somente permite que eu continue existindo como me oferece a oportunidade de viver mais doce, em um ano mais doce

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E assim, bem assim, os abraços e beijos trocados transformam-se em prova irrefutável de que tudo vai ficar bem. E vale qualquer disparate para a acidez que a falta de otimismo possa anunciar. Escolhe-se cuidadosamente a cor da roupa íntima, da roupa, das fitas, não se come galinha porque o bicho anda para trás, lentilha dá dinheiro, e por aí vai. Há quem pule ondas do mar ou use folhas de louro na carteira para dar sorte. Outros comem três grãos de uva. Ou sete. Essa é a minha preferida. A uva. Como três. Como sete. Bebo espumante. Bebo vinho. Ai, a uva. Docinha.

Acho que é uma daquelas coisas que nos levam à melhor lembrança da melhor idade. Quando eu era criança, o melhor de tudo traduzia-se em uva. Eu só comia uva e sorvete de uva, ou picolé de uva. Bebia suco de uva, Fanta uva – e beberia vinho se não fosse a pouca idade. Preferia as roupas roxas e nas festinhas de aniversário, só queria os balões cor-de-uva. Uvada, torta de uva, vinho doce, chiclete de uva.

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Ai, mas o sorvete

“Sorvete de uva, sorvete de uva, sorvete de uva”

É quase uma oração

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Na minha concepção, o que havia de melhor no mundo só poderia ter vindo de uma parreira. E o melhor melhor do mundo era o produto da parreira congelado e cremoso.

Desejo, então, do fundo da minha infância, um ano novo de uva. Ou de sorvete de uva. Desejo que peguem uma colher e façam uma bolinha. Pode ser no copinho ou casquinha. Vale até pingar na roupa. Só não deixem derreter. Aproveitem o sabor do universo e tenham um 2018 mais doce.

Author

Jornalista, radialista, cientista política e uma viajante inveterada. Tem uma relação de amor com a comida. Gringa, não recusa um vinho e uma polenta. Fez da viagem um objetivo de vida. Lisboa é um dos seus lugares preferidos no mundo, embora as melhores histórias estejam na Itália.

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