O Brasil sempre teve essa cara e esse jeito de terra prometida. Como é que diziam, mesmo? “Brasil, o país do futuro”. Eu sou cria da democracia, tenho a mesma idade da Constituição, então, pra mim, é fácil ver de onde isso vem. Da esperança. Afinal, gigante pela própria natureza, belo, forte, impávido, colosso. Um país de dimensões continentais em que a diversidade se converte em força. Todas as estações, múltiplos biomas, toda a gente pode ser feliz aqui. Tem água, tem sol, tem comida, tem cor.

Os portugueses sabiam disso. Foram chegando e se sentindo em casa, como se ninguém morasse aqui. Batizaram uma terra de que não era deles, pegaram ouro amarelo, madeira vermelha que nos empresta o nome e foram retalhando a terra verde. Mal deixaram o azul. E como produto final da apropriação, a aparência de liberdade também foi obra de um tuga. Pedro Américo até que tentou pintar como um momento heroico, mas a História já revela que o Grito da Independência se deu em meio de uma viagem no lombo de um burro, sem casaca e durante um intenso desconforto intestinal de Dom Pedro I. Independência ou morte, disse ele aflito. Que começo glorioso. Um país que mantinha que pessoas escravizadas declarado livre pelo filho do Rei que passaria a ser o Imperador. Tudo em casa.

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A partir daquele 7 de setembro, a aparência de Independência foi se expandindo

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Brava gente brasileira. O Hino da Independência anunciava que havia raiado a liberdade no horizonte do Brasil. Passados cem anos, parecia que o país era outro. Em 1922, parecia que a escravidão havia sido abolida e que as pessoas negras estavam livres da opressão, inclusive, do Estado. Parecia que a República havia sido proclamada. Parecia que o Brasil era uma espécie de democracia. A Semana de Arte Moderna trazia o Abaporu de Tarsila para o centro desse Brasil em ebulição, que parecia à procura de si mesmo. Parecia, parecia, parecia. Em 1972, então, no sesquicentenário da Independência, parecia ainda mais.

Era o tempo do “Milagre Brasileiro”, “ninguém segura esse país”, “90 milhões em ação”, aquela coisa toda. E para celebrar os 150 anos da Independência, os militares organizaram um torneio de futebol que ficou conhecido como Mini-Copa. Mas as comemorações do eram muito abrangentes. Pontes e viadutos foram batizados com o nome do primeiro Imperador; os selos brasileiros, que eram os mais feios do mundo, foram repaginados e transformados em pequenas obras de arte, com imagens da terra; também foi em 1972 que aconteceu a primeira transmissão colorida na televisão; e o governo investia forte em propagandas belíssimas. Teve até filme, com o galã Tarcísio Meira no papel principal. E não parou por aí, os despojos de Dom Pedro I foram trazidos de volta para o Brasil – não, trazer o coração não foi novidade. Tudo parecia uma festa. Parecia, parecia, parecia. Só parecia.

Porque em 1872, quando se celebrou o cinquentenário do grito do Ipiranga, o primeiro censo realizado no país mostrou que as pessoas escravizadas respondiam por 15% da população.  O Brasil era quase todo católico e analfabeto. Nos 50 anos seguintes, pouco havia mudado de verdade. Os negros que haviam sido escravizados e os seus descendentes foram atirados à própria sorte, a proclamação da República foi um golpe que só permitia existir a democracia do café com leite. Mulher não podia votar, analfabeto não podia votar. Ditaduras se sucederam e em 1972, quando se cantava a marchinha de carnaval do sesquicentenário, a Ditadura Militar cassava mandatos, assassinava quem se opunha ao regime e esquecia das pessoas.

Mas a brava gente brasileira resistiu e em 1988 o Congresso paria a Constituição Cidadã. E parece que estamos em uma democracia há mais de 30 anos. Parece. Mas uma história construída na base de aparências é forjada por detrás de uma cortina muito frágil. Sempre há rasgos e buracos no pano por onde se pode espiar e enxergar a realidade.

Hoje, por exemplo, enquanto o Presidente da República chama a primeira-dama de princesa e grita da maneira mais vulgar possível que é “imbrochável”, os trabalhadores se levantam no Grito dos Excluídos para perguntar “200 anos de (In)dependência para quem?”. Aliás, na capa dos principais sites de notícias do país, há três tipos manchetes : “Bolsonaro usa 7 de Setembro para fazer discurso de campanha eleitoral”; “Ato na Paulista tem ataques ao STF e faixas antidemocráticas”; “Grito dos Excluídos distribui café da manhã a 5 mil sem-teto em SP”. Enquanto o Presidente da República sequestra os símbolos nacionais para satisfazer o delírio ufanista do séquito de seguidores, há mais de 33 milhões de brasileiros passando fome.

Enquanto eu paro para escrever sobre a Independência do Brasil, o presidente se esmera para esfacelar a aparência da democracia no palanque. Basta olhar. Sempre há uma brecha por onde se pode descobrir a verdade. A gente só precisa escolher se vai espiar pela fresta ou esconder o rasgo antes mesmo de olhar. A gente só precisa escolher se vai olhar pra os problemas reais do país, por mais dolorosos que sejam, ou viver mais 200 anos de aparências.

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Jornalista, radialista, cientista política e uma viajante inveterada. Tem uma relação de amor com a comida. Gringa, não recusa um vinho e uma polenta. Fez da viagem um objetivo de vida. Lisboa é um dos seus lugares preferidos no mundo, embora as melhores histórias estejam na Itália.