Uma mãe de três me disse que matou a fé. Para uma mãe de três que só pode beijar um, é mesmo difícil acreditar no abstrato. É praticamente impossível acreditar no intangível quando dois filhos recém saídos da adolescência são presos injustamente. E eu sei que esse é o grande teste da fé, acreditar sem evidências. Devoção incondicional. Mas quando a condição é saber que um dos teus morreu sob custódia do Estado, talvez seja pedir demais. Por que manter viva, a fé, se um dos guris já não está?

O que ela disse ficou comigo. Horas depois da entrevista, eu ainda digeria a morte da fé daquela mãe e tomava o luto para mim. Primeiro, porque não foi exatamente um sentimento novo. Eu sempre questionei a natureza dessa crença sem limites que me parece incompatível com o jornalismo. Quando eu ando com fé, é como se eu fosse menos profissional por acreditar em algo não verificável. Segundo porque eu não vivi as tragédias de Maria*, mas o Brasil, sim.

Os brasileiros estão sufocados por uma pandemia que já soma 600 mil mortos no país. Há, por aí, um vírus açodado em um lugar em que as autoridades não se importam. Os alimentos estão caros o suficiente para ter gente na fila do osso. Meninas não frequentam a escola porque não tem acesso a absorventes. Jovens são encarcerados porque pretos. Além de toda a sorte de ódio destilada sob a forma da liberdade de expressão quando o brasileiro não é livre nem para viver. Por que, então, manter a fé viva, se o Brasil já não está?

Veja bem, essa não é uma tentativa de reeditar Nietzsche, que matou Deus. Gott ist tot, disse ele. O que eu digo é muito pior. Porque eu não estou matando Deus diante da racionalidade iluminista. A morte da fé é prática, não é filosófica. O sentido da fé foi esvaziado porque, simplesmente, é pedir demais.

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Por que alguém precisa acreditar no invisível, se tudo o que se faz, no Brasil, é sofrer?

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Depois de quatro anos, os dois filhos da mãe de três foram absolvidos pela justiça. A vida deles mudou para sempre e, pra sempre, ela só poderá beijar dois. Mas como uma católica oscilante, foi o bastante para ressuscitar a fé. Ela respondeu à minha pergunta, semanas depois do primeiro contato, dizendo que a gente precisa acreditar no invisível porque, no Brasil, fé é sobrevivência. Se a gente não acreditar no intangível, sobra a morte. Gil bem que avisou que a fé tá na mulher, num pedaço de pão, na maré, na lâmina de um punhal, na luz, na escuridão, na manhã, no anoitecer. A fé tá viva e sã e tá pra morrer.

Talvez o Brasil precise menos de Nietzsche e mais dos seus. A fé não costuma falhar, dizem.

 

Imagem original: Mathias Faust / Pixabay

Colagem: Geórgia Santos

Author

Jornalista, radialista, cientista política e uma viajante inveterada. Tem uma relação de amor com a comida. Gringa, não recusa um vinho e uma polenta. Fez da viagem um objetivo de vida. Lisboa é um dos seus lugares preferidos no mundo, embora as melhores histórias estejam na Itália.

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