Minha mochila é irmã de carne do tubinho de álcool gel que me segue desde os idos tempos em que conhecemos a Gripe A. Não, não é o mesmo tubinho, mas vocês entenderam. Foi na ocasião do surto do vírus H1N1, há mais de uma década, que adquiri o hábito de higienizar as mãos com uma frequência maior que a da pessoa limpinha e menor que a da maniática. As gavetas do escritório e os armários de casa também tem tubinhos para chamar de seus. Ou melhor, tinham. Nesta semana, o maninho da mochila ficou vazio e eu percebi que o restante da galera também já não dispunha da razão de existir. Atravessei a rua e fui até o supermercado para comprar mais. 

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Já não havia

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Já não havia álcool gel disponível no super do esquilo. Tinha aquele que se usa para fazer limpeza pesada, de casa, mas aí as mãos do vivente não aguentam de ressequidas. Mas nem tudo estava perdido. Dentro do estabelecimento havia outro, uma farmácia. Lá fui eu, com meu coração leviano, esperançosa de encontrar os tão amados tubinhos. Mas como diria Paulinho da Viola, meu engano foi esperar um bem. Já não havia. Já não havia álcool gel disponível na farmácia. Segundo a moça do caixa, havia acabado “até aquele pequenininho da Giovanna Baby que custa 27 reais”. Tudo por causa da epidemia do momento. 

O novo coronavírus já causou a morte de milhares de pessoas na China, onde o surto começou. No Brasil, há dois casos confirmados e ambos seguem vivos. As autoridades garantem que não há motivo para pânico, mas desde quando a gente dá bola pra o que as autoridades dizem? Bora fazer estoque de álcool gel e máscaras de proteção. As prateleiras de farmácias do país inteiro já estão vazias. E olhe que é produto nacional, me diz o guri da Panvel. Ou seja, vou ficar sem meus tubinhos porque estão todos apavorados com o que tem tudo para ser a epidemia mais perigosa de todos os tempos. 

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O medo é tanto que já se apela para o Todo Poderoso
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Mas não falo de reza, benzedura ou coisas do tipo. Circula pelas redes sociais uma convocação da Catedral Global do Espírito Santo de Porto Alegre, a autoproclamada “Casa dos Milagres”. A instituição neopentecostal aposta no poder de Deus contra o coronavírus. “Venha porque haverá a unção com óleo consagrado no jejum para imunizar contra qualquer epidemia, vírus ou doença!”

Veja bem, eles prometem IMUNIZAR conta QUALQUER EPIDEMIA, VÍRUS ou DOENÇA

Quando eu acho que atingimos não o fundo do poço, mas a camada do pré-sal, chega até mim outra convocação de combate à epidemias. Desta vez, o evento anunciado será na Assembleia Legislativa do Estado do Rio Grande do Sul, que dificilmente possa se autoproclamar a “Casa dos Milagres”, embora aprove medidas ultrajantes sob aplausos – o que não deixa de ser um feito e tanto. Em vez dos profetas Silvio e Maria Ribeiro, quem convoca é o deputado Eric Lins, do Democratas. Mas não, ele não propõe imunizar o pessoal na base do berro. Aliás, o assunto nem é o coronavírus. A ideia é debater a Epidemia de Transgêneros. É isso mesmo. EPIDEMIA DE TRANSGÊNEROS. 

O Ministério Público já está investigando a Casa Milagrosa. Esperemos para ver o que o judiciário fará com o evento criminoso na Casa do Povo – sim, porque transfobia é crime. De qualquer forma, estamos diante, sim, da epidemia mais perigosa de todos os tempos: a de ignorância. Mas essa não se previne com álcool gel. 

Geórgia Santos
Author

Jornalista, radialista, cientista política e uma viajante inveterada. Tem uma relação de amor com a comida. Gringa, não recusa um vinho e uma polenta. Fez da viagem um objetivo de vida. Lisboa é um dos seus lugares preferidos no mundo, embora as melhores histórias estejam na Itália.

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