O Brasil foi o primeiro país latino-americano a eleger uma mulher para comandar uma prefeitura: Alzira Soriano, na cidade de Lages, no interior do Rio Grande do Norte em 1928. Hoje, 90 anos depois, as mulheres ainda têm pouca representação política no país.

Com mais anos de estudo do que os prefeitos homens, experiência acumulada na trajetória política e com o desafio de superar grandes dificuldades em municípios pequenos e sem recursos. Esse é o perfil da maioria das prefeitas eleitas no Brasil em 2016. É o que mostra uma pesquisa recente do Instituto Alziras, uma ONG que discute a representação feminina na política, ao qual o Vós teve acesso.

Antes de falar dos resultados do estudo, que tal conhecermos um pouco sobre as eleitas no Brasil em 2016?

Naquele ano foram eleitas 649 prefeitas nos municípios brasileiros. O número acendeu um alerta, pois representou uma queda de 3% na comparação com as eleições de 2012. Mais ainda… dos 5.568 municípios brasileiros, 68% sequer tiveram candidatas mulheres ao poder executivo local.

Atualmente, menos de 12 em cada 100 municípios são governados por uma mulher. Esse número coloca o país abaixo da média de prefeitas eleitas em países da América Latina, Caribe e Península Ibérica. Nesses países, a média é de 13,4%, segundo índice medido pelo Observatório de Igualdade de Gênero da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe, a CEPAL.

No Brasil a região com o maior número de prefeitas é o Nordeste do país, onde 16% dos municípios são comandados por mulheres: são 288 prefeitas. As regiões Sul e Sudeste são aquelas com a menor proporção de Prefeitas em exercício, somente 7% e 9%, respectivamente. Se o recorte for feito a partir da raça, descobrimos que apenas 3% dos municípios brasileiros são geridos por negras.

O estudo do Instituto Alziras mostra um dado interessante. Apesar de terem sob sua jurisdição apenas 7% da população, a maioria das prefeitas foi eleita em municípios com até 50 mil habitantes. Apenas uma capital brasileira é governada por uma mulher eleita diretamente ao cargo de Prefeita, Boa Vista (RR).

Mesmo administrando municípios menores e com menos recursos públicos, as prefeitas tem maior nível de formação do que os prefeitos. Enquanto 50% dos prefeitos homens eleitos em 2012 têm ensino superior, 71% das prefeitas têm essa formação. Além disso, quatro em cada 10 prefeitas têm pós-graduação.

Além de maior ensino formal do que os homens, as prefeitas, em sua imensa maioria (88%) já atuavam em causas políticas antes de serem eleitas. Trinta e dois por cento delas já tinham sido prefeitas e outros 30% vice-prefeitas. Os índices mostram o que já falamos no começo desse texto: as prefeitas mulheres têm mais anos de estudo do que os prefeitos homens e experiência acumulada na trajetória política. Isso, no entanto, não garante a elas grandes orçamentos e cidades estruturadas. O estudo coordenado pelo Instituto Alziras mostra que essas mulheres, gestoras públicas, ainda sofrem com os problemas que a maioria das mulheres sofre.

Esta parte do texto até merece um formato diferente. Elaboramos uma lista para você conseguir ver com mais clareza o que estamos falando.

53% das prefeitas já sofreu assédio ou violência política pelo simples fato de ser mulher;
30% das prefeitas já sofreram assédio e violências simbólicas no espaço político;
24% das prefeitas sofre com falta de espaço na mídia, em comparação com os políticos homens
23% das gestoras municipais diz que teve seu trabalho ou suas falas desmerecidos pelo fato de serem mulheres;
22% das prefeitas diz sofrer com sobrecarga de trabalho doméstico, dificultando a participação na política;

Sobre esse último tópico, a divisão desigual do trabalho doméstico afeta diretamente as possibilidades de participação das mulheres na política. Para se ter uma ideia, metade das prefeitas entrevistadas pelas pesquisadoras afirmam ser as principais responsáveis pelas compras de mercado em suas casas. Além disso, uma em cada cinco prefeitas destaca o trabalho doméstico dentre as principais dificuldades enfrentadas em sua carreira política.

 

A importância de leis e incentivo

O Instituto Alziras afirma que a presença de mulheres no meio político é importante para incorporar diferentes perspectivas à administração pública, daí a importância de se incentivar a maior participação de diferentes perfis. O estudo citou como exemplo desse reflexo as prefeitas que mencionaram ter entre suas prioridades ações voltadas à saúde da mulher e de gestantes e ao atendimento de mulheres vítimas de violência.

A pesquisa, no entanto, pondera que ainda é preciso mais transparência e mais empenho dos partidos para assegurar condições efetivas de competição às candidatas. Além de mais recursos, o instituto apontou uma possível relação entre o êxito eleitoral e a participação anterior das eleitas em cargos de confiança no serviço público.

Quer conhecer o estudo todo? Clica nesse link aqui 

Évelin Argenta
Author

Saiu de Porto Alegre e invadiu os estúdios da Rádio CBN, em São Paulo. Possui uma voz que associada ao raciocínio rápido produz o exemplo perfeito do que é jornalismo ao vivo de verdade. Com um pé na Itália e, direto da Serra Gaúcha, não dispensa uma festa. Mas é uma colona que só come uva in natura – passa a passa.

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