Que a desigualdade de gênero está presente na política, na economia e no mercado de trabalho, você já está cansada de saber. Mas já parou para pensar como ela se manifesta nas artes? Na mais popular delas, o cinema, as mulheres ainda estão longe de conquistar um espaço igualitário em cargos de direção, por exemplo. No Oscar 2019, que teve os seus indicados revelados para todo o mundo nesta terça-feira (22), NENHUMA mulher foi indicada à estatueta de melhor direção.

E o roteiro não é novo. Nos 91 anos de existência da premiação, apenas CINCO mulheres foram indicadas ao prêmio. Apenas UMA ganhou. Quer mais? Das cinco diretoras indicadas, nenhuma é negra ou latino-americana. Só queria deixar registrado aqui que o nosso amigo word sublinhou a palavra DIRETORAS por considerar pouco usual.

Em 2018, na entrega do Globo de Ouro, ainda na esteira das manifestações do movimento #MeToo, a fala da atriz Natalie Portman ao anunciar os indicados a melhor diretor deixou bastante claro o que acontece na indústria do cinema. Natalie frisou que os indicados eram “todos homens”. A frase causou desconforto na plateia e acendeu a esperança de que ta   vez o reconhecimento ao trabalho das mulheres pudesse ter vez no Oscar daquele ano ou, quem sabe, no ano seguinte (mais conhecido como agora).

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Pois não foi o que aconteceu
Em 2019, assim como em 2009 (#10yearchallenge) temos novamente um total de ZERO diretoras indicadas

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O cenário é bastante cinzento para as mulheres na indústria cinematográfica. É o que mostra um estudo da Universidade do Sul da Califórnia, nos Estados Unidos. A pesquisa analisou uma base de dados de 1.100 filmes populares produzidos de 2007 a 2017. Dos 1.223 diretores envolvidos nesses projetos, apenas 4% são mulheres. São 43 diretoras em mais de MIL produções.

Nesse período, a maior porcentagem de diretoras mulheres foi registrada em 2008 (8%) e a menor em 2013 e 2014 (1,9%). A pesquisa descobriu que a situação é ainda mais grave em relação à continuidade de oportunidades para as diretoras. A maioria delas trabalha em apenas um filme: 84%. Entre os homens, esse número é muito menor: 55%.

Um das autoras da pesquisa, Katherine Pieper, escreveu: “Se você está tentando ter uma família ou trilhar um caminho em Hollywood, ter uma oportunidade a cada década não vai adiantar”. Katherine foi uma das cinco autoras da pesquisa Desigualdade em 1100 filmes populares: Examinando Retratos de Gênero, Raça / Etnia, LGBT e Deficiência de 2007 a 2017, publicada em julho do ano passado. O trabalho completo você pode acessar aí em cima, mas destacamos alguns pontos:

  • Nos 100 maiores filmes de 2017, há 4.554 personagens com fala. Só 31% eram mulheres. A proporção na tela é: 2,15 homens para cada mulher;
  • Apenas 4, dos 100 filmes mais populares de 2017, foram dirigidos por uma mulher não-branca;
  • Apenas cinco dos 100 filmes mais populares de 2017 tinham mulheres com 45 anos ou mais entre os protagonistas. Quando falamos de homens, esse número salta para 30;
  • Somente UM dos 100 filmes mais populares de 2017 tinha uma mulher negra com mais de 45 anos ocupando um papel de protagonista;
  • Nos filmes de ação/aventura menos de um quarto (24,5%) de todos os papéis com fala foram preenchidos por mulheres;
    Apenas 30,7% de todos os personagens de filmes de animação foram compostos por mulheres/meninas em 2017;
  • Comédia foi o gênero mais amigável para as mulheres em 2017. Naquele ano, 42,9% de todos os papéis foram preenchidos por alguém do gênero feminino;

Esses números se refletem em toda a indústria do cinema, de acordo com pesquisa feita pelo Centro de Estudos sobre a “Mulher na Televisão e no Cinema”, da Universidade de San Diego, também nos Estados Unidos. Em 2016, as mulheres representaram apenas 17% de todos os diretores, roteiristas, produtores, editores e cineastas nos 250 filmes americanos de maior sucesso.

O artigo, chamado “Novo estudo revela menos mulheres trabalhando nos bastidores de Hollywood” foi publicado em janeiro de 2017 e pode ser acessado na íntegra aí em cima. Aliás, o Centro de Estudos sobre Mulher na Televisão e no Cinema de San Diego tem estatísticas bem legais e recentes sobre a presença feminina na mídia. Fica a dica!

Para não falarmos somente de números e de estatísticas negativas, trago pra vocês um pouco mais da história das únicas mulheres que foram indicadas ao Oscar de melhor direção em NOVENTA E UM ANOS de premiação. E você querida leitora/leitor poderia justificar toda essa minha trabalheira e ver hoje um filme dirigido por uma mulher. Que tal?

Lina Wertmüller, por Pasqualino Sete Belezas (1975)
Quarenta e oito edições do Oscar se passaram até que a primeira mulher fosse indicada ao prêmio de direção, em 1977. Coube à diretora italiana Lina Wertmüller entrar para a história da premiação com seu Pasqualino Sete Belezas, que mistura drama e humor para contar a história de um desertor italiano que é capturado por soldados alemães durante a Segunda Guerra (1939-1945). O vencedor daquele ano foi John G. Avildsen, por Rocky: Um Lutador. Lina nunca mais foi indicada. E olha que ela dirigiu outros cinco filmes depois desse.

Jane Campion, por O Piano (1993)
Mais 17 anos se passaram até que outra mulher Mesmo depois de Wertmüller quebrar o tabu, ainda se passaram 17 anos até que uma segunda mulher fosse indicada ao Oscar de direção. No caso, a neozelandesa Jane Campion, que disputou em 1994 com O Piano, a história de uma mulher muda que nos anos 1850 é enviada à Nova Zelândia para um casamento arranjado. Campion não ganhou o troféu de direção, que ficou para Steven Spielberg, por A Lista de Schindler. Jane Campion dirigiu outros cinco filmes depois, mas nunca mais foi indicada à premiação.

Sofia Coppola, por Encontros e Desencontros (2003)
Dez anos depois de Campion, em 2004, a americana Sofia Coppola tornou-se a terceira mulher a concorrer ao Oscar de direção. Ela foi indicada por seu segundo longa-metragem, Encontros e Desencontros, estrelado por Bill Murray e Scarlett Johansson. No filme, dois americanos solitários e entediados – um homem de meia-idade e uma jovem mulher – veem seus caminhos se cruzarem durante uma viagem a Tóquio. Coppola não ganhou o Oscar de direção, que ficou para Peter Jackson, por O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei.

Kathryn Bigelow, por Guerra ao Terror (2008)
Foi apenas em 2010, na 82ª edição do Oscar, que o prêmio de direção finalmente foi entregue a uma mulher.Kathryn Bigelow fez história com Guerra ao Terror, que tornou-se O PRIMEIRO E ÚNICO longa-metragem dirigido por mulher a ganhar a estatueta de melhor filme. Guerra ao Terror acompanha três soldados americanos que têm a missão de desarmar bombas durante a Guerra do Iraque. Na categoria de direção, Bigelow, que é americana e tem 66 anos, concorreu com James Cameron, por Avatar; Lee Daniels, por Preciosa; Jason Reitman, por Amor Sem Escalas; e Quentin Tarantino, por Bastardos Inglórios.

Greta Gerwig, por Lady Bird: A Hora de Voar (2017)
Não demorou muito para ficar claro que a igualdade de gênero no cinema ainda está longe de ser alcançada. Depois da festa de Kathryn Bigelow, uma nova mulher só foi indicada ao Oscar oito anos depois. A americana Greta Gerwig concorreu com Lady Bird: A Hora de Voar. O filme narra um ano na vida de uma adolescente que, como a própria diretora, cresceu em Sacramento, na Califórnia. O troféu ficou com Guillermo del Toro (A Forma da Água), que ganhou o troféu.

Évelin Argenta
Author

Saiu de Porto Alegre e invadiu os estúdios da Rádio CBN, em São Paulo. Possui uma voz que associada ao raciocínio rápido produz o exemplo perfeito do que é jornalismo ao vivo de verdade. Com um pé na Itália e, direto da Serra Gaúcha, não dispensa uma festa. Mas é uma colona que só come uva in natura – passa a passa.

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