Hoje eu caminhei na rua. Vestido leve, sentindo o vento. Gosto de sentir o vento e a sensação de quase frio do outono. Pensei que queria um mundo de outono. Sem verão, sem inverno. Na primavera nem pensei, confesso. Um mundo sem extremos. Quando vi que o meu desejo pra hoje era o outono, senti vontade imensa de chorar.

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Fazia tempo que eu não sentia desejo de algo tão simples

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Ontem passei por uma rua onde uma pessoa estava sendo morta num assalto. Com meus dois filhos pequenos. Polícia, sirene, viatura na contramão. Pânico. E eu só queria ver se a academia de artes marciais era legal pra eles. Desejei não ter saído, desejei que eles não tivessem visto tudo aquilo, desejei que o rapaz não tivesse sido baleado, desejei que o outro rapaz não tivesse atirado, desejei que a família do rapaz que morreu não sofresse. Desejei dar colo pra mãe dele.

Dias atrás uma amiga querida infartou. Desejei que não tivesse infartado. Mãe de dois meninos, 6 e 9 anos. Desejei que não sofressem. Testes para morte cerebral. Desejei que os testes dessem esperança. Desejei que ela visse os filhos crescerem. Desejei que o companheiro tivesse sua companhia para seguirem viajando, sendo parceiros, existindo como a família querida que admiro.

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Desejei que não conhecer a história da Marielle, pois só conheci depois da sua morte
Desejei não saber de Brumadinho, de Mariana
Desejei não chorar pela África
Desejei não chorar por Suzano

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Hoje quando desejei o outono, me senti egoista. Depois tive vontade de sentar e chorar. Saudade do tempo em que a gente podia desejar coisas simples.

Raquel Grabauska
Author

Ela respira teatro. Atriz, diretora, produtora. Coordena o grupo Cuidado Que Mancha e o Espaço Cuidado Que Mancha. Péssima cozinheira, ótima de apetite. Já fez muitas coisas legais na vida, mas nada tão legal quanto o Benjamin e o Tom, os filhos. Por causa deles, pensa a maternidade meio que o tempo todo. Essa inquieta adora viajar e tem medo de galinha – menos no prato.

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