Lembro que adorava ler, quando pequena,  a revista Mad. Tinha uma parte em especial: um quadro com a imagem do que os pais achavam que o filho seria e outro com o filho no futuro, sendo algo absolutamente diferente. Hoje, alguns seriam impublicáveis. Totalmente politicamente incorretos.

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Bom, qual pai/mãe não sonha com o futuro dos filhos? Meu filho mais velho tem sete anos. Ele já “foi ser”: baterista, cientista, matemático e engenheiro da Lego que moraria na Alemanha. Possivelmente, já teve outras carreiras que foram descartadas nesses anos todos.

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Quando ele tocava bateria, eu, mãe artista, me emocionava, exibia, orgulhava. Quando começou a fazer contas de cabeça com seus míseros 7 aninhos, o pai, das Exatas, não cabia em si de felicidade. A cada troca de profissão, novos planos e expectativas. E a torcida silenciosa dos pais pra ver se o guri vai para as Humanas ou Exatas.

Pelo que conheço dele, pelo que conheço de nós, tanto faz. Meu pai queria que eu fosse nutricionista. Morreu no ano em que fiz vestibular para teatro. Antes de eu fazer, que fique claro. Não foi de desgosto, fiquem calmos. Muitas pessoas ficaram com pena: eu era uma boa aluna, com potencial. Como gastei toda aquela inteligência fazendo teatro?

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Eu não sei o que teria feito se meu pai estivesse vivo no vestibular. Não sei se teria tido coragem. A mãe respeitava minha decisão. Não torcia, mas respeitava. Meus irmãos me incentivaram. Eu fiz no impulso.

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Quando vejo meus filhos crescendo, fico torcendo para diminuir minha expectativa. Porque quando a gente está crescendo, a nossa expectativa em relação a nós mesmos já é imensa. Só nesse ano, meu filho começou uma escola nova, aprendeu a ler, teve que extrair dois dentes e depois disso ainda teve dois dentes moles que não caem nunca. Já pensou?! Como dar conta de tudo isso?

Quando vejo que ele já tem sete anos, vejo que ele só tem sete anos. Está crescendo e é uma criança. E vai errar, e vai bater cabeça, e vai… é lindo e difícil. Vou torcer pra que ele cresça bem. Que tenha a sorte de ter pessoas leais por perto. A minha parte eu estou fazendo: deixar ele crescer sendo ele.

*A imagem da capa é de um robô que mexe braços e pernas. Foi construído pelo nosso ilustrador mirim, Benjamin, de sete anos. 

Raquel Grabauska
Author

Ela respira teatro. Atriz, diretora, produtora. Coordena o grupo Cuidado Que Mancha e o Espaço Cuidado Que Mancha. Péssima cozinheira, ótima de apetite. Já fez muitas coisas legais na vida, mas nada tão legal quanto o Benjamin e o Tom, os filhos. Por causa deles, pensa a maternidade meio que o tempo todo. Essa inquieta adora viajar e tem medo de galinha – menos no prato.

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