Meu filho mais velho tem seis anos. Quando era bebê, fugia de todas as situações mais tensas. Não era bem uma fuga, era uma defesa. Eu admirava a sensibilidade dele. Se chegava uma criança mais agressiva na praça, instantaneamente ele mudava de lugar. Evitava o conflito. Sempre. Era mesmo impressionante essa distância que ele tomava das situações de confronto. Além disso, nós nunca deixamos assistir TV por muito tempo, sempre fomos cuidadosos na seleção do que ia assistir, também evitando ao máximo cenas violentas.

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Quando nasceu nosso segundo filho, recebemos visitas de uns amigos muito queridos. Eles trouxeram um brinquedo de pano lindo para o bebê. Adorável. E um Darth Vader para o irmão. Sim! Um Darth Vader

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Já não achei os amigos tão queridos. Na verdade, nem eram meus amigos. Eram amigos do meu marido. E eu ali, olhando pra aquele brinquedo, pensando no quão rápida eu poderia ser para fazer sumir aquilo sem que o filho notasse, sem que os amigos percebessem meu desconforto. Nesses dois segundos, paixão à primeira vista! O Darth Vader tinha sido um encontro lindo! Uma criança completamente feliz com o brinquedo novo! Completamente feliz mesmo. Respirei, sequei as três lágrimas que já tinham caído e pensei: tudo bem, é só um boneco. Até que outro dia…

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Uma amiga muito querida mostrou um vídeo do Vader pra ele. Assim, sem falar comigo. Pegou o celular e mostrou. Suei frio, gelei, ri de nervoso, respirei e tentei desmontar a cara de louca que devia estar

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Ele adorou. Amou. Venerou. Feliz da vida! Andava pela casa cantarolando a música. Realmente muito empolgado. O bebê cresceu. O irmão mais velho seguiu gostando do lado escuro da força. Os dois brincam muito de serem o Vader. Adoram. Seguem sem assistir. Seguem amando. Respirei e entendi que tem o boneco, tem a música, tem a fantasia. E tem eles. Eles vão brincar, experimentar, fantasiar. E seguirão sendo eles. Meus adoráveis Vaders.

Raquel Grabauska
Raquel Grabauska
Ela respira teatro. Atriz, diretora, produtora. Coordena o grupo Cuidado Que Mancha e o Espaço Cuidado Que Mancha. Péssima cozinheira, ótima de apetite. Já fez muitas coisas legais na vida, mas nada tão legal quanto o Benjamin e o Tom, os filhos. Por causa deles, pensa a maternidade meio que o tempo todo. Essa inquieta adora viajar e tem medo de galinha – menos no prato.
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