O TANTO em maiúsculas foi por minha conta. Ele não gritou. perguntou com a naturalidade com que faz todas as mil perguntas do dia. Mas eu ouvi como se tivesse sido gritado. Todo meu corpo (menos a bunda) enrijeceu.

Tinha eu saído do banho, bem tranquila, limpinha e cheirosa. Estava indo do banheiro para o meu quarto me vestir. Não percebi a presença de um seguidor. Virei, me cobri com a toalha, desfiz a cara de espanto e pensei no que responder:

– porque nos últimos oito anos eu me dedico à maternidade mais do que a mim mesma;
– porque sou artista e preciso viver do meu trabalho e fico com pouco tempo para ginástica,
– porque tenho 45 anos e a genética é assim mesmo;
– porque sim ;

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Pensei ainda mais algumas coisas. Pensei em como ensinar pra um menino a respeitar as diferenças. A respeitar os corpos. Pensei, pensei, pensei. Ele ali, me olhando, com a mesma cara que estaria se tivesse me perguntado qual a cor do céu num dia nublado. Eu percebi que para ele era só uma pergunta. E me dei conta de que tudo bem. Minha bunda balança mesmo. Por todas as minhas razões. E talvez algumas outras que eu não saiba…

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Respondi que é assim mesmo

Cada bunda tem seu jeito

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Assim, como as pessoas têm cores diferentes, cheiros diferentes, tamanhos diferentes. A minha bunda é assim. E tá tudo bem. Ficamos os dois bem. Ele foi brincar e eu me vesti. Acho que depois disso comecei a rebolar mais quando caminho, sem preocupação. Não sei muito mais oq ue poderia ter falado pra ele. Mas ensinei pra mim que tá tudo bem coma minha bunda.

Raquel Grabauska
Author

Ela respira teatro. Atriz, diretora, produtora. Coordena o grupo Cuidado Que Mancha e o Espaço Cuidado Que Mancha. Péssima cozinheira, ótima de apetite. Já fez muitas coisas legais na vida, mas nada tão legal quanto o Benjamin e o Tom, os filhos. Por causa deles, pensa a maternidade meio que o tempo todo. Essa inquieta adora viajar e tem medo de galinha – menos no prato.

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