Ter um filho é algo que não tem como descrever. Posso falar anos e anos sobre o que é. E nunca vou chegar nem perto da complexidade, a felicidade e a inteireza que envolve tudo isso. Sabe como se tem filho? Com amor. Essa é a melhor forma. Meu carinho e admiração a quem tem tanto amor.

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Conversei com quatro pessoas que tiveram umas das atitudes mais lindas que alguém pode ter: adotar uma criança

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Airton, pai do Henrique e do José Guilherme

Quando tiveram a ideia de adotar?
O Marcos sempre teve vontade, porém decidimos no inicio de 2009 e neste mês mesmo agimos…hehehe

Quanto tempo entre a ideia e a adoção?
Dia 26 de janeiro de 2009 fomos até o JIJ (Juizado da Infância e Juventude) nos inscrevemos, já com documentação exigida e, a partir daí, passamos por todo o processo de habilitação (entrevista com psicólogos e assistentes sociais com visita dos mesmos em nossa casa) para adoção como qualquer outro casal ou pessoa que pretende adotar. Em abril já estávamos habilitados e na lista de adotantes do CNA (Cadastro Nacional de Adoção). Em novembro recebemos a ligação do JIJ da cidade de origem deles e fomos conhecê-los no dia 26 de novembro e depois veio duas visitas deles em nossa casa durante fins de semana. Depois da segunda visita decidimos que os queríamos e eles aceitaram ser nossos filhos. No dia 14 de dezembro aconteceu a audiência e saímos dali com a guarda provisória. Após a segunda visita da equipe de acompanhamento fomos dados como totalmente adaptados, teve o parecer favorável do juiz e depois do trânsito julgado do processo (45 dias) fomos registrá-los em maio de 2010.

Que idade tinha a criança?
Adotamos dois irmãos. O Henrique tinha 9 anos e o José Guilherme tinha 4 anos.

Qual a parte mais difícil?
Felizmente não tivemos nada de empecílio. Achamos que foi um processo que bem feliz. Todas as pessoas que de uma forma ou de outra se envolviam neste processo eram muito tranquilas e foi facílimo TUDO.

Como foi quando viu a criança pela primeira vez?
Vimos eles pela primeira vez no dia 26 de novembro, quando fomos no abrigo. Nada sabíamos sobre eles. Primeiro conversamos com a equipe maravilhosa do abrigo, nos contaram sobre a vida deles e depois fomos no pátio conhece-los. Estavam junto com outras crianças. Fomos sem eles saber quem éramos e assim conhecemos sem saberem a nossa intenção. Depois eles vieram até a sala da secretaria e conversamos com eles. Foi amor a primeira vista. Falamos o que estávamos fazendo ali e se eles gostariam de nos conhecer melhor, nossa casa. Combinamos a visita. Depois desta tivemos a certeza que eram eles e eles também que éramos nos os pais que eles escolheriam.

O que te fez saber que era aquela a tua criança?
Eu costumo dizer que o universo conspirou e que nossos caminhos estavam traçados para se cruzarem. Sou espirita e acredito que nesta passagem na terra estamos resgatando algo de outras vidas. Estava escrito que assim seria. E está sendo maravilhoso.

O que tu recomenda pra quem tá pensando nisso?
Eu recomendaria que adotasse imediatamente e deixe de pensar. É uma relação de completa troca de amor, carinho, atenção, puxões de orelhas e companheirismo. Portanto, recomendo que a pessoa se jogue de cabeça e totalmente disposto para dar e receber muito amor e carinho. Com certeza será muito feliz.

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Dorana, mãe do Davi e, agora, mãe da Júlia, de um ano e três meses

Quando tiveram a ideia de adotar?

Sempre tivemos a vontade de adotar, mas a atitude veio quando não conseguimos engravidar do segundo filho.

Quanto tempo entre a ideia e a adoção?

A ideia desde o namoro…kkkk Mas entre ir no Foro Central, ficar habilitado e adotar, 6anos e 5 meses..

Que idade tinha a criança?

Um ano e dois meses. Pedimos no perfil uma menina de até quatro anos.

Como foi quando viu a criança pela primeira vez?

A primeira vez a gente se esforça pra se equilibrar, é um momento tenso e intenso!

O que tu recomenda pra quem tá pensando nisso?
O que recomendo, bom, em uma semana com ela em casa, estamos nos adaptando. Que esta busca seja feita com o apoio da tua família, que seja iniciada de uma vez e que lembre sempre que ” ganhar” um filho é um presente. Independente de ser biológico ou não, ele será TEU pra sempre. Responsabilidade como pais…para criarmos uma pessoa que some neste mundo.

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Ana, mãe do Henrique,7 anos

Quando tiveram a ideia de adotar?

Após tentarmos três gestações sem sucesso

Quanto tempo entre a ideia e a adoção?
1 ano

Que idade tinha a criança?
1 ano e 8 meses

Qual a parte mais difícil?
À espera longa sem ter prazo certo e depois não saber muito sobre a criança

Como foi quando viu a criança pela primeira vez?
01 mês antes de ir para minha casa

O que te fez saber que era aquela a tua criança?
Não sabia, ela me foi designada e nós a acolhemos, não sentimos aquela coisa mágica que muitos falam. Houve uma empatia e afeto mútuo pois ele queria uma família e nós queríamos um filho, mas nada mágico, tudo muito construído até hoje, tijolinho por tijolinho. No início há um estranhamento, pois de repente nasce uma criança, sem gestação, sem data de parto.

O que tu recomenda pra quem tá pensando nisso?
Esteja de coração aberto, não coloque ideias em caixinhas, nem planos rígidos, abra-se para aprender, para receber e, claro, para exercitar um amor que com certeza vai te desafiar e exigir muito.

Vanessa, mãe da Dora, três anos

Quando tiveram a ideia de adotar?
No nosso caso não foi uma “ideia”. Eu sempre acreditei ser essa uma das certezas que tinha sobre maternidade. Minha companheira abraçou o meu mundo e as minhas certezas e com a vida em comum começamos a reconhecer os ecos uma da outra como nossos também. Assim se deu a decisão íntima de sermos mães pela via da adoção.
Entendemos que para nós o caminho da maternidade pela inseminação de um doador de sêmen já é uma adoção. Adoção essa unilateral, no nosso entender . E ainda com variáveis muito elásticas quanto ao que mobiliza esses doadores.
Outra questão quanto à seleção dos possíveis doadores em um banco de sêmen brasileiro que nos deixou tão distantes dessa ideia foi o fato de que, como mulheres brancas que somos, só poderíamos ter doadores igualmente brancos. Para nós isso é assustador. Já na época. Ainda mais hoje, nós mulheres brancas, mães de uma menina negra.

Quanto tempo entre a ideia e a adoção?
Alguns anos (quase 4 anos) desde a primeira vez que falamos sobre o assunto. Em um primeiro momento nos dedicamos a construir nossa relação. Nosso entendimento como casal. Do amor sedimentado cresceu a vontade de expandir esse amor para alguém que nascesse desse amor. E a adoção é só AMOR – pelo outro. Um outro que não é gerado em você mas nasce e cresce em você. E a razão de ter aqui a “palavra Amor” repetidas vezes é porque só é possível a entrega quando o AMOR é maior e transborda.
Porém de tudo – demoramos 17 meses para sermos habilitadas e da habilitação até a chegada da Dora foram quase 4 anos.

Que idade tinha a criança?
A conhecemos com menos de um ano e ela chegou com 1 ano e meio.

Qual a parte mais difícil?
Como mãe a parte dilacerante é quando já se sabe que sua filha existe; tem um rosto, um olhar, um cheiro… e você precisa dia após dia se despedir e a deixar no abrigo até que alguém compreenda que essa criança já tem uma família para chamar de sua.

Para nós como mulheres que se amam o mais difícil foi lidar com o preconceito. Em muitas etapas iniciais do processo de habilitação e ainda pela parte técnica do abrigo.

Como foi quando viu a criança pela primeira vez?
Foi um turbilhão. Dentro do abrigo, noite, frio. Eu ali em dia de festa para as crianças maiores. Ela doente sem nada de festa. Muito séria, olha triste, desconfiada, vem pro meu colo. Foi a emoção mais doida e doída que já vivi. Fui tomada por uma coragem de mundo e ao mesmo tempo um medo imenso do que estava por vir me pegou pela mão. Não é fácil quando nos damos conta de que o coração bate fora do peito.

O que te fez saber que era aquela a tua criança?
Como não saber?

O que tu recomenda pra quem tá pensando nisso?
Recomendo leitura, escuta, compartilhamento, entrega. Recomendo urgentemente que participe de grupos de apoio à adoção. Apenas os sérios. Tem muita bobagem nas redes e muito preconceito.
E antes de mais nada que somente pense a adoção se ou quando o coração estiver pronto. Adoção não pode ser vista e não é a última opção para se formar uma família. Os adotantes é que devem ser na verdade os adotados. As famílias é que devem adotadas por essas crianças. Já passaram por muito. Não são consolo nem nos devem gratidão. O luto é delas e não nosso. Precisamos ser e estar inteiros para elas que muitas vezes são fragmentadas, apenas parte de histórias que “preferimos” não contar, que “preferimos” esquecer.
E por fim termos a certeza segura de que uma família formas pela adoção tem raiz no amor. E isso – o amor – também passa de pais para filhos.

Lugares bem legais para ver um pouco sobre isso

DNA da Alma

Adoção Tardia

CEJA – PE

E aqui, pra chorar um pouquinho

* Na foto estão a Vanessa e sua companheira, Júlia, junto com a filhota, Dora. O clique foi da Maria Clara Adams, para a exposição Amores Perfeitos.

Raquel Grabauska
Author

Ela respira teatro. Atriz, diretora, produtora. Coordena o grupo Cuidado Que Mancha e o Espaço Cuidado Que Mancha. Péssima cozinheira, ótima de apetite. Já fez muitas coisas legais na vida, mas nada tão legal quanto o Benjamin e o Tom, os filhos. Por causa deles, pensa a maternidade meio que o tempo todo. Essa inquieta adora viajar e tem medo de galinha – menos no prato.

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