Eu me criei numa época em que os times eram montados no esquema 4-3-3. No ataque existiam dois pontas e um centroavante, camisa nove, matador. O meio-campo era muito bem definido. Tinha um médio-volante, camisa cinco, carregador de piano, o homem da marcação. O camisa dez, o maestro, o craque do time. O cara que ditava o ritmo, chamado meia-armador. Nessa função de “pensadores” tínhamos Rivelino, Ademir da Guia, Gérson e Carpegiani. E a camisa oito ficava com o “ponta de lança”, que era um jogador de meio com qualidade de infiltração e talento de artilheiro, como Zico, Pelé e Jair, por exemplo.

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Nem sempre o número indicava a posição. O dez sempre vestiu o diferenciado. E, por isso, Zico e Pelé consagraram a dez e não a oito
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Mas deixando de lado a numerologia e destacando a função, eu sempre admirei e me identifiquei com os jogadores que vestiram a camisa oito. Pois, quase sempre, eles eram aqueles que faziam o trabalho limpo e o trabalho sujo. Ajudavam na marcação e apareciam no ataque para tabelar com o centroavante para achar uma brecha, para furar o bloqueio e entrar na cara do gol.

Me criei admirando camisas oito clássicos como Iúra, Jair, Osvaldo, Cléo e Emerson. Uns mais marcadores, outros mais atacantes. Mas jogadores de fôlego, de entrega e de habilidade. Onde existia um camisa oito, quase sempre existia coração. E também qualidade técnica.

Pois, sem nunca ter vestido a oito, Luan, no 4-3-3 dos anos setenta e oitenta, seria um jogador dessa função. Mas eu não sei se ele vingaria tempos atrás. Digo isso porque vejo muita técnica e muito pouco coração no jogador que está trocando o Grêmio pelo Corinthians.

“Rei da América” em 2017 e principal nome do Grêmio na conquista da Libertadores daquele ano, Luan não conseguiu dar um passo à frente. A sua ausência na lista de Tite para a Copa de 2018 parece ter sido determinante. Nos dois últimos anos , ele não conseguiu evoluir. Estacionou. Quem sabe, até regrediu. Quase foi trocado por Tiago Neves. Acabou ficando em Porto Alegre e perdendo relevância.

A torcida discute a sua saída. Mas poucos ainda acreditam que Luan possa repetir o que fez em 2017. Talvez falte foco. Quem sabe condicionamento físico ou sequência. Mas, acima de tudo, acho que falta a Luan o amor à camisa. Mesmo que ele tenha sido multicampeão pelo Grêmio e que tenha feito mais gols que Renato, Luan nunca fez juras de amor ao Grêmio. Algo bem diferente do que eu vi, por exemplo, em Iúra, que comeu o pão que o diabo amassou, mas teve força e qualidade suficientes para dar a volta por cima e mudar o rumo da história.

Luan pode jogar mais que Iúra, mas os velhos armadores ou pontas de lança tinham muito mais coração que alguns ditos craques de hoje em dia.