Pelé foi Rei. Pelé foi lenda. Pelé foi espetáculo. Pelé foi tudo no mundo do futebol. E fora dele também. John Lennon, certa vez, disse que os Beatles eram mais famosos que Jesus Cristo. Quem sabe, nessa comparação, Pelé não merecesse ser incluído?

Pelé fez mais de mil gols. Conquistou três Copas pelo Brasil. Dois Mundiais pelo Santos. Introduziu o futebol, ou melhor, o soccer nos Estados Unidos. É nome de estádio. Marca de café. Personagem de história em quadrinhos. Foi o primeiro jogador intercontinental. Parou uma guerra. E, certa vez, na Colômbia, fez com que o público expulsasse de campo o juiz que se atrevera a lhe mostrar um cartão vermelho. 

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Pelé virou adjetivo. Pois, se você é craque no que faz, as pessoas dizem: esse é Pelé. Nós, brasileiros, costumávamos dizer que Michael Jordan, por exemplo, era o Pelé do basquete

Pelé sabia o tamanho que tinha. Era recebido por presidentes, papas, reis e autoridades. Era garoto propaganda de praticamente tudo. De refrigerante a cartão de crédito. Mas também era simples e atencioso no trato com as pessoas. Não negava uma paradinha para tirar uma foto ou assinar um autógrafo. Para ilustrar um pouco dessa humildade, recordo uma história contada por um outro grande ídolo que tenho: o fotógrafo Lemyr Martins, um dos pioneiros da Revista Placar.

Em 1973, quando Pelé ainda jogava no Santos, Lemyr recebeu uma missão da Federação Holandesa de Futebol: fotografar o Rei com todas as camisetas das seleções que já tinham enfrentado os holandeses ao longo da história. Essa publicação seria lançada no ano seguinte para marcar uma data especial referente ao futebol nos Países Baixos.

Numa época em que não existia photoshop, nem recursos gráficos e técnicos que pudessem facilitar a vida do fotógrafo, Lemyr precisava da boa vontade do maior jogador de futebol de todos os tempos para cumprir a sua difícil empreitada.  Ou seja, Pelé precisava vestir, uma por uma, todas as camisetas que foram enviadas pela Federação Holandesa. Sabendo que não seria fácil, Lemyr se mandou para Santos. Naquele tempo, trabalhar numa revista como a Placar abria muitas portas, e uma delas era a do vestiário da Vila Belmiro onde Pelé se encontrava para uma sessão de massagens. 

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Lemyr falou com Pelé e o seu pedido foi atendido: depois de várias horas de ensaio, ele conseguiu fazer Pelé posar com os uniformes de todas as seleções

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Tem Pelé com o fardamento da Islândia, da Bélgica, da Tchecoslováqia, Noruega, Argentina e inclusive da Holanda. E todo orgulhoso do seu trabalho, Lemyr mostrou a prova: um Pelé todo de laranja. O uniforme da seleção que revolucionou o futebol, foi a grande sensação da Copa de 1974 e acabou eliminando o Brasil naquele mundial que foi justamente o primeiro sem Pelé.

Lemyr Martins mostra a fotografia que fez de Pelé com a camisa da seleção holandesa de futebol durante o Sarau do Futebol, em Porto Alegre / Foto: Gustavo Fogaça

Imagina, nos dias de hoje, quem faria isso? Quem seria capaz de uma gentileza desse tamanho? Por isso não se pode medir Messi, Neymar, Cristiano Ronaldo e os craques atuais com a mesma régua de Pelé. 

Os tempos são outros. O futebol é outro. Hoje se tem mais velocidade, mais força e mais trabalho tático. Mas também existe o cartão amarelo, o vermelho e o VAR. Pelé jogou praticamente toda sua carreira em um período em que os árbitros não possuíam cartões amarelos e vermelhos. Pois a regra só foi instituída na Copa de 1970, no México. Ou seja, até ali, a caçada a Pelé liberada. Basta você ver o que aconteceu contra Portugal na Copa de 1966, na final da Libertadores contra o Boca em 1963 e até mesmo na semifinal de 1970 contra o Uruguai.

Pelé passou por cima de tudo isso. E tentar dimensionar a sua grandeza é algo que nenhum de nós vai conseguir. Nós, brasileiros, que já diminuímos a genialidade de Garrincha, transformando-o num fanfarrão de pernas tortas, não podemos cometer o mesmo tipo de injustiça com Pelé. 

Por favor, parem de comparar Pelé com Maradona, Messi, Mbappe ou quem mais surgir. Pelé é só um. Pelé é Rei. Pelé é o Rei de todo o mundo. Pelé é eterno. Pelé é o próprio futebol.