Engana-se quem acha que a derrota de 7 x 1 para a Alemanha na Copa do Mundo de 2014 tenha iniciado um revolução no futebol brasileiro. Nada disso. Na época, existiam duas explicações. A safra era ruim e vergonhosa e goleada era resultado da desorganização da CBF, envolvida em vários escândalos financeiros.

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Técnico estrangeiro? Intercâmbio? Nem pensar. A gente não precisa, dizia-se

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Numa tentativa de moralizar o futebol brasileiro, José Maria Marin, o sucessor de Ricardo Teixeira, trouxe Dunga. A qualidade não melhorou e os resultados continuaram sendo ridículos. E a Seleção seguiu desmoralizada. Correndo risco de não garantir vaga para a Copa do Mundo de 2018, o estudioso e bem prepardo Tite foi chamado em 2016 por Marco Polo Del Nero para salvar a pátria. A resposta do novo treinador foi espetacular. O time cresceu, novos talentos surgiram e o Brasil terminou as eliminatórias sul-americanas em primeiro lugar e com classificação antecipada. Veio a Copa da Rússia e, mesmo que Tite não tenha derrotado nenhuma equipe europeia na fase de preparação, acreditava-se que teríamos chances de sonhar com o título. Afinal, contávamos com a inteligência de Tite e o talento de Neymar. Chegamos somente até às quartas de final. Um “nó tático” aplicado no primeiro tempo pela Bélgica nos tirou do Mundial e reacendeu a discussão sobre o tipo de futebol que praticamos aqui.

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Nesse período que abrange as Copas de 2014 e 2018 culpamos basicamente a CBF pelos erros da nossa seleção e pelo declínio do nosso futebol

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Precisaram chegar, primeiro, o argentino Jorge Sampaoli, e, depois, o português Jorge Jesus para se perceber que é possível fazer um futebol diferente e de muito mais qualidade em relaçao àquele que estávamos habituados e ver no Campeonato Brasileiro. Sim, diferente porque Sampaoli pegou um Santos sem dinheiro e, com um grupo modesto, inclusive perdendo o garoto Rodrygo, deu um padrão de jogo que coloca o Peixe numa valorosa disputa de segundo lugar com o milionário Palmeiras. E diferente também porque Jorge Jesus pegou um supertime que não decolava com Abel Braga e colocou o Flamengo no topo da América do Sul e do Brasil com as conquistas da Libertadores e Brasleirão.

O sucesso do Flamengo de Jesus fez do Palmeiras a sua mais recente vítima. A derrota de 3 x 1 no último domingo e a diferença de onze pontos na tabela fizeram o presidente palmeirense mudar de planos, demitir o técnico Mano Menezes (há apenas três meses no cargo) e também Alexandre Mattos, que estava há cinco anos como diretor de futebol. Pelo dinheiro que investe e que já investiu desde a chegada do patrocínio da Crefisa, o Palmeiras conquistou muito pouco. No ano passado, quando se disse que, após as eliminações na Copa do Brasil e na Libertadores, o título do Brasileiro era obrigação, os palmeirenses não gostaram muito. Talvez, agora, olhando onde o Flamengo chegou, eles reconsiderem isso.

O surpreendente da coletiva do presidente Maurício Galiotte é que ele disse o futebol vive uma transformação e que o Palmeiras precisa adotar um modelo diferente. Que o futebol vive em transformação isso existe há bastante tempo. Quanto ao projeto novo, me parece que o Palmeiras seguirá os passos de Santos e Flamengo e buscará um técnico de fora para alcançar um patamar que nem Felipão, nem Mano conseguiram. Em outras palavras dá para dizer que o Palmeiras entendeu que não é mais o único rico do futebol brasileiro. O Flamengo, com um aporte financeiro crescente, tem um tendência de crescimento e manutenção daquilo que já alcançou. E para superar o time da Gávea, é preciso encontrar alguém que consiga mudar o estilo de jogo que o Verdão vinha apresentando há basante tempo.

Possivelmente, o novo comandante do Palmeiras seja um técnico de fora. Pode ser até mesmo Jorge Sampaoli que não deve ficar no Santos. O fato é que no mercado local, as opções foram reduzidas. Pouca gente se destaca. Pouca gente apresenta um trabalho inovador. Daria para citar Renato Portaluppi, Thiago Nunes, Rogério Ceni e um renascido Vanderlei Luxemburgo. Nem mesmo os outrora elogiados Fernando Diniz e Roger Machado conseguem manter o rótulo de inovadores.

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O Brasileirão de 2019 precisa ser destacado por ser o momento em que o futebol brasileiro deu o braço a torcer e entendeu que o intercâmbio é salutar

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Novas ideias e conceitos fazem muito bem para os nossos times, nossos treinadores e agora também para nossos dirigentes. Quem ainda discordar disso, precisa ser internado para tratamento. O trabalho de Jorge Jesus e Sampaoli colocou o futebol brasileiro contra a parede. Pôs em questionamento o modelo que os consagrados Felipão, Mano e Abel Braga, por exemplo, utilizavam para aqui. O nível subiu. E a cobrança em cima dos nossos técnicos também. O intercâmbio vai crescer e só poderemos dizer que esse ciclo estará completo quando, ao mesmo tempo em que os nossos clubes busquem técnicos de fora, os europeus e argentinos também se interessem pelos técnicos brasileiros.

 

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