O Marco Aurélio Souza é um amigo que eu fiz na vida e no futebol. Nos dois nascemos em Canoas. Nós dois frequentamos o colégio La Salle. Nós dois tivemos aulas com o professor Norberto Neselo que, por sinal, foi também professor dos nossos pais. Nós dois nos formamos em jornalismo. Nós dois trabalhamos na RBS por muitos anos. Eu acabei sendo desligado. E ele foi para Santa Catarina e, de lá, para a São Paulo onde trabalha na Globo e na Sportv. E, depois de muito tempo, resolvemos montar um curso de jornalismo esportivo. Eu cuidando da parte de rádio e, ele, da de TV.

Foi num 20 de setembro, ou melhor, num 21 de setembro, em meio a um feriadão aqui em Porto Alegre, que ministramos o curso no Vós, mas devido a compromissos posteriores – ele tinha uma festa de aniversário e eu, uma transmissão – não conseguimos nos reunir para fazer aquela resenha de avaliação. Isso ficou para o final de semana seguinte, quando ele voltaria a Porto Alegre para o jogo entre Inter e Palmeiras. Dias antes, ele avisou. “Reserva um dia pra gente. Vou tentar levar o Casagrande e o Cléber (Machado) junto.”

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E avisou:

“O Casa é muito engraçado. Vale a noite.”

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E por falar em engraçado, a tal noite já começou errada. A reserva feita antecipadamente numa parrilla da rua São Manoel, que fica em um bairro nobre da capital gaúcha, não foi confirmada. Quando cheguei, o Marco Aurélio, acompanhado do Casagrande e da repórter Gabriela Ribeiro,  já estava buscando um Uber para ir para outro lugar. Ofereci meu modesto Kwid para o deslocamento. O problema é que o Casagrande, com aquele tamanhão todo, resolveu ir no banco de trás. Imagina o desconforto dele espremido e o meu com aqueles dois joelhos pressionando o banco do motorista.

Resolvemos ir ao Barranquinho, o irmão mais novo da churrascaria Barranco, uma das mais tradicionais de Porto Alegre. Lá não tem erro. E o Cléber Machado já conhecia a casa. Nos sentamos e o Marco fez o pedido. A Gabriela, que não come carne vermelha, preferiu um frango. Os demais escolheram as especialidades que a casa oferece. Entre elas,  o  matambre recheado. O matambre, geralmente, não é uma delícia. Mas o de lá é muito bem feito. É macio, bem temperado e um excelente aperitivo. O Casagrande ficou curioso com o prato. Perguntou o que era, como se faz,  mas não experimentou. Preferiu as polentinhas e o frango da colega.

O Casão não encarou o matambre, mas sempre foi um cara corajoso […] por ter posicionamento e atitude. Por fugir da marcação que a alienação exerce sobre quase a totalidade dos jogadores do futebol.

Casagrande e a democracia corinthiana. Foto: reprodução

O Casão não encarou o matambre, mas sempre foi um cara corajoso. Não só por escancarar a sua situação de dependente químico e por ter conseguido dar a volta por cima. Mas, para mim, principalmente por ter posicionamento e atitude. Por fugir da marcação que a alienação exerce sobre quase a totalidade dos jogadores do futebol. Por carregar uma bandeira política e aproveitar o enorme carisma e a liderança do Doutor Sócrates para consolidar, lá nos anos 1980, a Democracia Corinthiana.

Nos anos 80, eu ainda era um adolescente “tarado” por futebol e que começava a despertar para a vida política. Estava ainda no que se chamava “segundo grau” do colégio La Salle. Acompanhava o enfraquecimento do governo militar, os chiliques do General Newton Cruz batendo com um bastão nos capôs dos automóveis dos manifestantes em Brasília, as voltas de Brizola e Gabeira, o fim do exílio e a chamada abertura lenta e gradual. Após o golpe miliar, a  democracia começava a ser reestabelecida e a ideia de eleições diretas começava a crescer até tomar as ruas como o movimento das “Diretas Já”.

O futebol sempre foi um mundo à parte. Jogador de futebol tem comportamento de diva. Não se envolve em nada. Tudo fica para ser resolvido pelos dirigentes e assessores. Mas no Corinthians entre 1982 e 1984, a situação era diferente.

 

A Democracia Corinthiana

A inteligência de Sócrates, considerado pelo jornal inglês The Guardian um dos seis atletas mais inteligentes da história, a militância de Wladimir e a rebeldia do jovem Casagrande casaram perfeitamente e formaram o núcleo do movimento batizado pelo publicitátrio Washington Olivetto, vice-presidente de marketing do clube na época, como Democracia Corinthiana.

Com o aval e participação do jovem vice-presidente de futebol, o sociólogo Adílson Monteiro Alves, e com permissão do técnico Mário Travaglini, o movimento cresceu e tomou conta do clube. Envolveu outros nomes como Eduardo Amorim e o uruguaio Daniel González e mexeu com a estrutura do futebol brasileiro. Dirigentes, imprensa, jogadores dos outros clubes e boa parte do público não via aquilo com bons olhos. Para um país acostumado com a censura e a ditadura militar, era pura transgressão. Até poderia ser, mas era também um ensaio para o novo Brasil que muitos e muitos sonhavam.

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Era um exemplo de autogestão que propunha mais liberdade e maior participação nas decisões administrativas do clube
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A temporada de 1981 do Corinthians havia sido terrível. O time terminou em vigésimo-sexto no Brasileiro e em oitavo no Paulista. E como os estaduais serviam como ranking para as vagas do Brasileirão do ano seguinte, o time acabou tendo que disputar a Série B. Mas com a chegada de Casagrande e o fortalecimento da “Democracia Corinthiana”, o ano seguinte foi de muito sucesso. O time chegou às semifinais do Brasileiro e ao título do Paulistão. Sócrates e Casagrande tornaram-se uma dupla dentro e fora de campo.

Casagrande falou de toda sua admiração por Sócrates, que era um exemplo, um ídolo e um amigo. Essa harmonia só foi quebrada quando a direção do clube, em 1983, resolveu trazer o goleiro Emerson Leão. A contratação foi colocada em votação. Sócrates, ao lado da maioria, aprovou o reforço. Casagrande, que preferia apostar no até então titular Solito, disse não e acabou sendo voto vencido.

Entre uma polentinha e outra, Casão contou o episódio das chuteiras brancas. Uma moda que o jovem centroavante introduziu no futebol brasileiro habituado a ver somente chuteiras pretas. Aliás, não foi Casagrande quem descobriu aquele material. Na verdade, foi trazido por Daniel González, que ganhou de presente de um amigo durante as férias nos Estados Unidos. Era uma chuteria desenvolvida para gramados sintéticos. Tinha travas baixas, mas nada que atrapalhasse o rendimento do atacante corinthiano nos gramados naturais.

Logo na chegada, Leão e Casagrande se encontraram e o goleiro disse:

– Moleque, deixa eu ver essas chuteiras.

Leão com uma cara debochada analisoua novidade e concluiu:

– Bacana esse material. Quero ver se ela sabe fazer gol.

Casagrande recolheu as chuteiras e pediu para ver as luvas de Leão e deu o troco.

– Muito boas. Quero ver se elas sabem defender.

Com essas personalidades antagônicas, os dois conviveram apenas um temporada no clube. E apesar de discordar da maneira como as coisas eram decididas, Leão foi extremamente competente e decisivo na conquista do título estadual de 1983. Principalmente nas semifinais contra o Palmeiras, quando, por acaso, alguém do grupo descobriu que o goleiro já estava acertado para jogar no rival no ano seguinte. Casagrande, que fazia uma patrulha constante, chamou Sócrates e os outros líderes do grupo para colocar Leão contra a parede. Afinal, que história é essa?

Leão confirmou que estava acertado com o Palmeiras. Casão, não exatamente com essas palavras, fez uma cobrança dura: ou você defende tudo, ou a gente vai tirar o teu couro. Com duas grandes atuações do goleiro, o Corinthians empatou o primeiro jogo em 1 x 1 e venceu o segundo por 1x 0, passando para a final contra o São Paulo.

Para Leão, a hierarquia no futebol tem o presidente, o técnico e a torcida como o mais importante. Desdenhando da maneira como as coisas eram decididas no Parque São Jorge, o goleiro dizia que a “Democracia Corinthiana” era uma “democracia de três”. Ou seja, tudo era decidido para que Sócrates, Casagrande e Waldimir se sentissem à vontade.

Essa postura convencional e personalista de Leão serviu de contra-ponto ao movimento e também para dar apoio  àqueles que não faziam muita questão de participar da “Democracia”. Zenon, outra estrela daquele time, foi um dos jogadores que tinha uma sintonia muito maior com a postura do goleiro. E durante a passagem de Emerson Leão, a “Democracia Corinthiana” teve uma certa oposição interna.

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Mas esse mesmo Leão, mostrou uma outra face que surpreendeu Casagrande. Em 2005, quando o atacante vivia uma crise gerada pela dependência quimica e precisou de internação, o ex-goleiro foi o único colega a visitá-lo.
– Ela ia ao hospital quase todos os dias. E quando não aparecia, mandava recado e perguntava como eu estava – recorda Casagrande
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Leão, nesse momento complicado, foi parceiro. Uma parceria que Casagrande viveu quase sempre com Sócrates. Com o Doutor, Casão engrossou o coro pelas “Diretas Já”, movimento que tomou conta das ruas e cidades do Brasil. Entre 1983 e 1984 foram 32 mega-comícios nas grandes cidades do país. Ao lado dos principais políticos da oposição, como Tancredo Neves, Ulysses Guimarães, Lula, Mário Covas e Leonel Brizola, a dupla corinthiana reforçava o palanque que tinha Osmar Santos como locutor oficial e a presença de um time de artistas de peso como Chico Buarque, Beth Carvalho, Martinho da Vila e Mário Lago.

A voz das ruas foi transformada numa emenda encaminhada pelo deputado federal mato-grossense Dante de Oliveira. O texto que decidiria a volta das eleições diretas para presidente de república foi para votação na Câmara no dia 25 de abril de 1984. Apesar de toda mobilização popular, não passou. E o governo fez de tudo para garantir que a Emenda Dante Oliveira não fosse aprovada. Alegando uma pane no sistema de abastecimento, a energia foi cortada, o Congresso foi cercado por tropas armadas e os deputados governistas esvaziaram a sessão.

Valorizadíssimo pela participação na Copa do Mundo de 1982 na Espanha, Sócrates estava de saída do Corinthians. Mas, ainda numa última tentativa de mobilizar a torcida e o público, ele condicionou a sua permanência à volta das eleições diretas. Como a emenda foi rejeitada, ele seguiu o seu destino e transferiu-se em 1984 para defender a Fiorentina, na Itália. Sem Sócrates, a “Democracia Corinthiana” deixou de existir. Ainda mais após a saída de Casagrande que, em 1986, também se transferiu para a Europa.

O Marco Aurélio tinha razão. A noite valeu a pena. Para ser completa, só faltou o Casagrande experimentar o matambre recheado.

 

Foto capa: José Pinto

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