Imigrar não significa ignorar o que acontece no Brasil. Independente da distância, é impossível repercutir a espiral de retrocessos vividos desde o golpe de 2016. Ao mesmo tempo, sucita um dilema permanente, uma espécie de culpa de alguém que optou por um confortável autoexílio enquanto amigos e colegas tentam formar uma resistência aos constantes ataques a direitos que jamais imaginei que seriam retirados. Nasci em 85, sou filho de militante política criado no berço da democracia e da liberdade.

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E eis me aqui vivendo em outro país em busca de liberdades e oportunidades que vejo recrudescerem todo dia na terra onde nasci

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É uma angústia, uma sensação de impotência. Uma dúvida sobre minha dignidade em dizer alguma coisa sobre minha terra a partir do conforto da tela do celular enquanto a luta é travada no dia-dia. Mas também sei que no Brasil, tomar posição nesta disputa reduziu meu círculo social, que aliado à escalada da violência foram determinantes para trocar de endereço.

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Eu já não me sentia livre para me expressar, não me sentia mais confortável para circular, não via sentido no que estava fazendo

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Já faz quase meio ano e ainda fico dividido entre minha liberdade de escolher um local onde tenho tranquilidade para planejar a vida e o sentimento de egoísmo por deixar para trás os problemas de onde nasci. O futuro me parece cada vez mais tenebroso do outro lado da fronteira e não sei bem quando volto, até por que sinto ainda não consegui partir completamente.

Author

Alvaro Andrade, 32. Já fui vendedor de pastel e porteiro de hotel. Hoje, jornalista. Mas tudo é comunicação. Vivendo em Montevideo para entender (e contar) como outro mundo é possível.

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