Aonde o senhor vai apresentar o atestado de domicílio?

A pergunta é feita por uma simpática policial que preenche o formulário no 11º Distrito, em uma tranquila rua do bairro Malvin, em Montevideo. Eu poderia ter inventado uma desculpa, como abrir conta em banco ou fazer ficha na biblioteca, mas resolvi testar o sistema.

És para el registro de adquiriente de cannabis en la farmacia, respondo caprichando no portuñol.

Cada envelope vem com 5g e custa 200 pesos, aproximadamente 24 reais.

A policial segue impávida, carimba o formulário e me deseja boa tarde, sem perder a simpatia no trato. Percebo que o único a estranhar aquela situação sou justamente eu, que em breve seria o mais novo cadastrado entre os 22.550 consumidores que tem direito a comprar na farmácia 10g de cannabis por semana em duas variedades de diferentes potências cultivadas em instalações do Exército. Parece roteiro de ficção, mas é Uruguai no más.

Para obter o registro não basta ir à polícia comprovar domicílio. Aos estrangeiros também é exigida residência permanente no país, uma papelada que dei início em Porto Alegre e foi resolvida após nove meses no Uruguai sem muita burocracia. De posse da cédula uruguaia, seda, isqueiro e comprovante de domicílio, fui bem feliz até a agência dos Correios mais próxima. Uma simpática casa, com amplo pátio às margens de uma das principais avenidas da cidade. Na entrada, algumas encomendas esperam entrega; dentro, um ambiente desorganizado e cheio de avisos de papel presos com alfinete no quadro verde com moldura de madeira. Na porta, novamente a polícia.

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Me aproximo e digo que desejo fazer o cadastro para comprar marirruana

O atendente não entende meu portunhol. Repito em tom de voz mais alto: para la cannabis el la farmacia. Ele toma minha identidade uruguaia, analisa com a calma típica do paisito e me insere no sistema, o que não inclui nenhuma informação pessoal a não ser um cadastro demográfico com idade, nível de formação e cidade onde vivo. O que permite saber o perfil médio do usuário por aqui: a maioria é de homens, entre 30 e 40 anos, com ensino médio ou superior completo.

Do meio da bagunça surge um leitor de impressões digitais; nove dos dez dedos da minha mão são registrados e em menos de dois minutos recebo um comprovante. Saio ainda processando aquele momento: o sistema é visualmente prosaico, envolvendo formulários de papel e um guichê típico de qualquer filme do Darín; por outro lado é extremamente eficiente e eu tenho direito a participar disso.

Desavisado, corro até a primeira farmácia ávido por, enfim, agarrar meus pacotes. No ônibus para o bairro Pocitos, onde está uma das quatro farmácias que toparam a empreitada de vender maconha ao lado da aspirina, já vou planejando o esperado momento da degustação da erva produzida por empresas contratadas pelo governo. A ansiedade é interrompida pelo desembarque; caminho triunfante até a farmácia, ensaiando mentalmente o portunhol pra não precisar repetir o pedido.

Era dia de testar o sistema. E ele mostrou que ainda precisa ser aprimorado. Na porta da farmácia, escrito a mão no melhor estilo uruguaio, a frase do apocalipse:

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“NO HAY MARIJUANA”

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Abalado, abro a porta e pergunto por previsão de chegada. A atendente, com o pouco que lhe resta de paciência depois de responder essa pergunta sei lá quantas vezes no dia, me informa que só a partir do dia 06 de março.

Saio googleando alguma informação e deparo com um app que mapeia e informa em qual farmácia ainda há estoque. A mais próxima está a 200km. Rapidamente faço contas mentais e percebo que vou precisar segurar as pontas. O governo criou a demanda mas não deu conta do recado. As empresas designadas pra cultivar a ganja falharam no ciclo e houve um hiato na produção, desabastecendo uma legião de 22 mil usuários que romperam a desconfiança e colocaram seus dedos amarelados no sistema. A degustação vai ter que esperar.

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Três semanas depois…

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Carros passam buzinando, pessoas filmam da janela dos ônibus, outros mandam trabalhar. São 08h30 de uma segunda-feira, o verão está acabando e a maconha voltou às prateleiras das farmácias uruguaias. Na semana anterior, o governo anunciou que o estoque seria reposto, o que foi suficiente para eu e as torcidas do Peñarol e Nacional nos unirmos neste importante compromisso no raiar do primeiro dia verdadeiramente útil desde o Natal.

Na fila que dobra a esquina antes das 9 da manhã, pessoas de todas as idades, gêneros e orientações sexuais conversam animadamente, fumam algum porro que alguém colocou na roda e tomam mate tranquilamente. A polícia passa e apenas observa de dentro da viatura. Poderia ser na Califórnia, ou uma cena utópica desses musicais dos anos 70, mas é século XXI, América do Sul, no mesmo país que foi pioneiro no voto às mulheres, no casamento homoafetivo, na legalização da prostituição e do aborto.

Depois de 45 minutos, estou no balcão da farmácia onde uma força-tarefa atende aos clientes: como uma linha de produção fordista que identifica, entrega e cobra um a um dos usuários. Nem precisa dizer que a demanda pelo remédio de Marley é muito maior que por aspirina. Decido por experimentar as duas variedades. Compro Alpha e Beta, 9% de THC. A primeira predominante índica, com efeito relaxante e brisa mais suave; a outra sativa, com pegada mais ativa, criativa e inspiradora.

Passo meu indicador esquerdo pelo leitor digital sem apresentar nenhum documento; levo 10g de cogollos para casa, entregues em um envelope selado e carregado de informações e alertas, como qualquer outro produto da prateleira com suas advertências e tabela nutricional. A brincadeira sai por módicos 400 pesos, como 48 reais.

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A galera do grupo do Whats no Brasil chora, as directs no Instagram fritam. Habemus maconha uruguaia

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Ônibus direto pra casa, azar a padaria, a larica fica pra depois. Pego o kit, vou pra sacada, ponho um Pink Floyd no shuffle. Escolho as três maiores flores; são buds compactos, frescos e muito cheirosos; tem um aroma doce e é possível notar os tricomas, sinal de que foi colhido na época correta para atingir o melhor efeito.

Faço um brinde à gravura do Mujica na parede e prendo fogo. A primeira tragada enche o pulmão e a tossida é inevitável. A brisa já se faz presente, a vista diminui, as nuvens ganham densidade e os acordes de atingem em cheio os sentidos. Não é um petardo que anula a iniciativa do sujeito, mas um sopro de inspiração pra se deter aos detalhes da vida.

Sistema testado, sistema aprovado. Que boa erva cultivam os uruguaios.

Alvaro Andrade
Author

Alvaro Andrade, 32. Já fui vendedor de pastel e porteiro de hotel. Hoje, jornalista. Mas tudo é comunicação. Vivendo em Montevideo para entender (e contar) como outro mundo é possível.

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