A abordagem da imprensa tradicional na cobertura econômica costuma ser alvo constante das discussões ideológicas que circulam – prensadas entre discursos de ódio, ironias e ofensas – nas redes sociais. Entre as correntes mais heterodoxas, ressaltaram-se as reportagens encabeçadas pelo “apesar da crise” uma espécie de mote para ressalvar conquistas e méritos mesmo em meio à recessão atribuída, em grande escala, à ausência de planejamento do governo brasileiro.

O apesar da crise tem muito de piada, mas é a máxima que simplifica e traduz, de certa forma, parte da linha que norteia a maior parcela do jornalismo econômico produzido atualmente. A ausência de contexto, de reconhecimento e análise sobre os emissores das mensagens recorta uma realidade apenas parcial. Ao exaltar o apesar da crise como exceção meritória em meio a um lamaçal entendido como criado exclusivamente por gestão pública, reverbera-se, na realidade, uma visão de mundo. E é justo que ao acertarmos nossos acordos com ouvintes, espectadores e leitores, o façamos ler as letras miúdas.

Recentemente, uma reportagem sobre o pós-governo Temer, o título “PIB deve melhorar, mas desemprego e inflação devem piorar”, ressalvando, em uma unanimidade de economistas a correção providencial de rumo na economia, quase que suavizando o momento tão conturbado. Ora, se por um lado, as políticas macroeconômicas visam alto nível de emprego, estabilidade de preços, distribuição de renda e crescimento econômico de forma minimamente equânime, por outro, não se pode esquecer a dimensão de cada um desses temas para nossos públicos. Desemprego e inflação podem ser mais do que tópicos para alguns milhões.

O espectro do recorte que exalta a necessidade de severos ajustes e reformas capitaneadas por grupos de economistas, também ecoa uma corrente de pensamento. Nem todo ajuste encontra concordância e naturalidade unânime. Atrás dos microfones e das canetas que conduzem as palavras, há sempre interlocutores. É justo que, seja amparada pela Escolas Austríaca, Keynesiana, Marxista ou de Chicago, não se traduza um discurso como universal, como verdade exclusiva, como linha única para o jornalismo econômico. Para uma ciência multifacetada, uma visão plural.

Tércio Saccol
Author

Jornalista e mestre em Comunicação pela Famecos. Fez especializações em gestão de marketing e em Economia Brasileira e Globalização. Colorado fervoroso, contraria toda a normalidade do ser humanos ao ser um apaixonado por economia.

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