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Não é normal que cientistas e entusiastas da ciência saiam às ruas em defesa de suas práticas. Mas cá estamos.

No sábado passado, milhões de pessoas saíram às ruas pelo mundo inteiro em defesa da ciência. Isto é, a ciência geral. A prática de fazer pesquisas empíricas para chegar a conclusões baseadas em resultados duplicáveis. A base de todo o nosso conhecimento do mundo moderno. Foi tanta gente só nos Estados Unidos que, outra vez, superou os participantes da posse do presidente.

A história do anti-intelectualismo nos Estados Unidos não é nada nova

Para entender tudo isso, é preciso reconhecer o fundamento do apelo dos cientistas: a ciência sofre um ataque existencial aos seus recursos e medidas com a chegada de um executivo notoriamente anti-intelectual. A casta política que envolve o presidente também adota esta posição. Seja por interesses corporativos ou religiosos, há uma corrente notável de anti-intelectualismo nos Estados Unidos. O país figura entre os que menos acreditam na evolução e na mudança do clima no Ocidente, entre outros assuntos básicos de ciência. Há setores céticos a ponto de promoverem movimentos contra a medicina moderna que lhes deu a possibilidade de viver vidas mais longas e com melhor qualidade. E assim continua.

A história do anti-intelectualismo nos Estados Unidos, porém, não é nada nova. Existe desde a fundação das colônias em solo norte-americano, antes de serem sequer estados, nem entre eles unidos. No caso dos Estados Unidos, a Grã-Bretanha não conseguiu exportar o seu modelo de classes sociais, sendo a vasta maioria dos chegados provenientes de classes inferiores no velho mundo. Desde então, a educação acadêmica sofre de uma percepção que varia entre inutilidade, elitismo, improdutividade ou mais além. É um constante por partes maiores ou menores da sociedade até ainda hoje.

É por este ceticismo da ciência que tanta gente marchou nas ruas. Não porque existe em si, mas porque acaba de tomar conta dos mais altos poderes do país. O tônico da fé na auto-suficiência e a ideia de que apenas esforços ambíguos são a chave de sucesso não é só o elixir do homem comum. Agora, um dos grandes partidos já tomou uma dose alta. Os cientistas viram-se obrigados a protestar pelo senso comum que entende o benefício do seu trabalho. Falta ver se o resultado é duplicável.

Image: Thomas Jaggi
Sacha
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Americano que saiu de Lisboa para morar em Barcelona. Ensina comida, cultura e língua portuguesa em vídeos. Produz o podcast Bottom of the Mainstream, focado em temas LGBT. Filólogo por opção, formado em Estudos Russos e Ciência Política pela Universidade do Colorado e a Universidade Católica Portuguesa. Não cansa do estilo de vida mediterrâneo.

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