Dia 20 de novembro é o Dia Nacional da Consciência Negra. A data foi escolhida em homenagem à morte de Zumbi dos Palmares (1655-1695), principal referência negra na história do Brasil. Todos nós sabemos disso, do porquê ser feriado em algumas cidades. Entretanto, uma coisa não pode passar batido nessas orações: referência.

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Zumbi é, sim, o primeiro nome em que pensamos quando falamos de negritude no país, mas ele não é um bastião, o único

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Temos muitas referências negras na nossa história e, propositalmente, não sabemos de sua existência. Em conversas com amigos – negros e brancos de diferentes classes sociais – fiquei assustado ao saber do desconhecimento de nomes como Abdias do Nascimento (1914-2011) e Lélia Gonzalez (1935-1994). Esses dois foram líderes contemporâneos que tiveram impacto na cultura e política negra brasileira no último século, mas por que não os conhecemos? Ou pior: por que não vamos atrás de suas histórias?

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Porque o racismo age de muitas formas e invisibilizar o negro é uma delas

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Sou de Porto Alegre, nascido e criado, e só em 2015 passei a conhecer eventos de identidade e resistência do povo negro da cidade. Porto Alegre é uma cidade com uma segregação absurda. Todos nós, moradores da Capital, sabemos disso. No momento em que falamos os nomes dos bairros Moinhos de Vento e Restinga, conseguimos enxergar a cor dos moradores. Conseguimos fazer as associações de branco e negro; rico e pobre; central e periférico; bom e ruim; organizado e bagunçado; limpo e sujo. E fazemos isso sem esforço nenhum, “é natural.”

O Dia Nacional da Consciência Negra é um dia para que se reflita em cima de questões como essa, a da invisibilidade. Ele serve para que o debate do racismo seja levado ao maior número de pessoas possível, brancas e/ou negras. Ele serve para pensarmos em formas de mudar essas associações de bom e ruim, no momento em que falamos sobre pessoas brancas e pessoas negras. Ele serve para que as referências negras não sejam esquecidas, mas, sim, estudadas e respeitadas.

E esse momento de reflexão sobre a invisibilidade pode começar em Porto Alegre, uma das cidades mais ricas em cultura e história negra do Brasil. Na cidade que abrigou uma das maiores referências negras do país: Oliveira Silveira (1941-2009). Na cidade em que se iniciou o movimento e o projeto para que o 20 de novembro fosse escolhido como o dia da nossa consciência negra.

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*Na foto, Oliveira Silveira, poeta, militante do Movimento Negro e um dos líderes da campanha pelo reconhecimento do Dia Nacional da Consciência Negra (Divulgação)

Airan Albino
Author

Airan Albino é natural de Porto Alegre, jornalista pós-graduado pela PUCRS, envolvido com cultura e questões de identidade racial. Trabalha como Assessor de Mídias Sociais do Fundo Brasil; é um dos fundadores do grupo MilTons, que se propõe a discutir as masculinidades negras; faz parte da coletânea "Diálogos contemporâneos sobre homens negros e masculinidades".

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