“Veja bem, nosso amor é perfeito.” Já ouvi tantas vezes essa frase, esse verso, em muitas vozes e momentos diferentes. Principalmente na voz do meu pai. Mesmo sendo dos casos mais raros, por estar junto dele nos rolês, entre seus amigos e amigas, passei a chamar meu pai pelo nome, Adão, o Adãozinho.

Acho que por essas e outras respeito demais um mais velho. Admiro essa figura que carrega em si o tempo. Esse mesmo Adão, me criou cantando suas reais letras, seus nobres versos. Todos os dias, todas as semanas, me conduzia ao espaço, ao universo do samba quando eu ainda era só uma esponja.

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A foto é de 10 de agosto de 2019, sábado, véspera de Dia dos Pais
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Aeroporto Santos Dumont, Rio de Janeiro. Crédito: Airan Albino

Eis que lhe vejo, seu Reinaldo, saindo de um dos portões de desembarque. Parecia mentira. Não ia perder essa chance de falar com o senhor. Apesar de achar que não teria coragem, fui. Mesmo de fone, o senhor parou e me escutou. Agradeceu pelo carinho e falou que teria mais shows pela frente. Aquilo pra mim foi tudo. Lhe desejei um feliz dia.

Nesse mesmo 2019, ano em que não haveria motivos pra gente falar dessa gente de bem que só tem mal pra dar, falamos. Falamos até de linha sucessória de famílias brasileiras. Bom, na minha família, o Adão me disse desde guri, que eu era um príncipe. Ele me carregava pra cima e pra baixo, e cantava, cantava muito as músicas do senhor. Que o senhor descanse em paz.

Que os outros tantos e tantas que o senhor inspirou sigam carregando o aprendizado de suas letras e compartilhando com o tempo. Eu prometo fazer isso. Obrigado por me mostrar a realeza, Príncipe. Essa é a minha oração pedindo pro senhor Oyá.

Reinaldo Gonçalves Zacarias (09 /11/1954 – 18/11/2019)
Airan Albino
Author

Airan Albino é natural de Porto Alegre, jornalista pós-graduado pela PUCRS, envolvido com cultura e questões de identidade racial. Trabalha como Assessor de Mídias Sociais do Fundo Brasil; é um dos fundadores do grupo MilTons, que se propõe a discutir as masculinidades negras; faz parte da coletânea "Diálogos contemporâneos sobre homens negros e masculinidades".

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